Um algoritmo pode decidir quais tarefas você fará durante o dia, definir seus turnos, calcular parte do salário ou influenciar suas chances de promoção. A partir de agora, na Espanha, o trabalhador tem direito a saber quando isso acontece e quais critérios estão por trás dessas decisões.
As novas regras entraram em vigor em 5 de outubro de 2026 e ampliam as obrigações de transparência das empresas. Quando sistemas algorítmicos ou automatizados influenciarem diretamente as condições de trabalho, não será suficiente simplesmente informar que eles existem: o empregador terá de explicar como funcionam e quais critérios utilizam.
Não basta dizer que existe um algoritmo

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O ponto mais importante é justamente esse.
Se uma empresa utiliza inteligência artificial ou outro sistema automatizado para distribuir tarefas, organizar horários ou calcular remunerações, deverá explicar por escrito as pautas, critérios e regras utilizadas pelo sistema.
Isso também pode alcançar algoritmos que participam de decisões sobre promoções, mudanças de função ou possíveis demissões.
A ideia é permitir que o funcionário compreenda quais variáveis podem afetar suas condições profissionais e, principalmente, tenha elementos para questionar uma decisão que considere injusta ou discriminatória.
A obrigação faz parte do Real Decreto 723/2026, que adapta ao direito espanhol regras europeias destinadas a tornar as condições de trabalho mais transparentes e previsíveis. Para novos funcionários, essas informações devem ser fornecidas por escrito antes do início do trabalho. Quem já está contratado também poderá solicitá-las à empresa.
Espanha já tinha regras sobre algoritmos no trabalho

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A ideia de abrir a chamada “caixa-preta” dos algoritmos não surgiu agora.
Desde a chamada Lei Rider, de 2021, o Estatuto dos Trabalhadores da Espanha já reconhece o direito dos representantes dos funcionários de conhecer os parâmetros, regras e instruções utilizados por algoritmos ou sistemas de inteligência artificial capazes de afetar condições de trabalho, acesso e manutenção do emprego.
A nova regulamentação acrescenta uma camada importante: essa transparência passa a alcançar diretamente o trabalhador, e não apenas sua representação coletiva.
A mudança ocorre enquanto a própria União Europeia amplia a regulamentação da chamada gestão algorítmica. A Diretiva Europeia sobre trabalho em plataformas, por exemplo, determina supervisão humana de sistemas automatizados e estabelece que determinadas decisões prejudiciais, como suspender ou encerrar a conta de um trabalhador de plataforma, devem ser tomadas por uma pessoa.
Empresa não precisa entregar o código do algoritmo
Existe, porém, um limite importante.
A nova obrigação não significa que empresas precisarão revelar o código-fonte de seus programas, entregar seus modelos de inteligência artificial ou tornar públicos segredos comerciais.
O que precisa ser explicado são os critérios relevantes.
Imagine, por exemplo, um programa que distribua automaticamente os turnos de funcionários. A empresa não precisaria mostrar milhares de linhas de código, mas teria de explicar quais fatores são considerados pelo sistema e como eles podem influenciar a decisão.
A mesma lógica vale para sistemas que calculam bônus ou avaliam desempenho.
O objetivo é que o trabalhador consiga entender por que uma decisão automatizada pode afetá-lo, sem obrigar a companhia a divulgar toda a tecnologia por trás do software.
O medo é que algoritmos reproduzam discriminações
Existe uma razão importante para essa preocupação.
Sistemas automatizados podem reproduzir preconceitos presentes nos dados utilizados para desenvolvê-los ou criar padrões discriminatórios difíceis de detectar justamente porque seus critérios permanecem escondidos.
Por isso, a discussão europeia vai além da simples transparência. A legislação sobre trabalho em plataformas determina avaliações periódicas do impacto de decisões automatizadas e prevê medidas quando forem identificados riscos elevados de discriminação.
O governo espanhol também vem defendendo maior controle sobre o uso de inteligência artificial nas relações profissionais. Em junho, o Ministério do Trabalho da Espanha destacou que algoritmos já participam de praticamente todas as etapas da vida profissional, desde processos seletivos e promoções até mudanças contratuais e desligamentos.
A tecnologia continuará sendo utilizada para organizar equipes e automatizar decisões. A diferença é que, pelo menos na Espanha, o trabalhador ganha agora mais ferramentas para perguntar algo que até pouco tempo atrás podia não ter resposta: por que o algoritmo decidiu isso sobre mim?
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