Celulares, redes sociais e outras plataformas digitais se tornaram parte inseparável da rotina de crianças e adolescentes. Agora, uma das maiores análises já realizadas sobre o assunto sugere que essa transformação pode estar deixando consequências importantes para a saúde.

Uma série de estudos publicada pela The Lancet estima que cerca de 20% dos casos de depressão e 15% dos casos de obesidade entre jovens poderiam estar associados à exposição recreativa a telas por mais de duas horas diárias. Os números chamam atenção, mas os próprios pesquisadores fazem uma ressalva fundamental: associação não significa necessariamente que as telas sejam a causa direta desses problemas.

Quase 9 milhões de pessoas foram incluídas na análise

Uso excessivo de telas pode enfraquecer conexões neurais e afetar o cérebro dos jovens
© Unsplash

Continua após a publicidade


A dimensão do trabalho ajuda a explicar sua relevância.

Os pesquisadores revisaram 121 estudos anteriores, que por sua vez reuniam 2.790 pesquisas primárias. No total, foram analisados dados de aproximadamente 9 milhões de pessoas com idades entre zero e 24 anos.

A conclusão mais ampla é que o chamado ambiente digital pode ter se tornado um novo determinante estrutural da saúde.

Durante décadas, especialistas em saúde pública consideraram fatores como renda, educação, condições de moradia e região onde uma pessoa vive para entender diferenças na saúde da população.

Os autores defendem que o ambiente digital deveria começar a receber atenção semelhante.

Isso acontece porque crianças e adolescentes não usam mais a internet como uma atividade isolada. Redes sociais, videogames, vídeos, mensagens, inteligência artificial e smartphones estão integrados à maneira como estudam, socializam, descansam e se divertem.

O número de 20% precisa ser interpretado com cuidado

A estimativa mais impressionante do estudo afirma que aproximadamente um em cada cinco casos de depressão entre jovens poderia estar associado à exposição recreativa a telas por mais de duas horas diárias. Para obesidade, a proporção estimada chega a 15%.

Em escala global, os pesquisadores calcularam que isso poderia representar aproximadamente 2,8 milhões de anos de vida saudável perdidos anualmente relacionados à depressão e outros 240 mil relacionados à obesidade.

Mas existe uma diferença importante entre associação e causalidade.

Uma criança ou adolescente pode desenvolver problemas emocionais porque passa muito tempo conectado. Mas também pode acontecer o contrário: alguém que já enfrenta depressão, ansiedade, solidão ou dificuldades sociais pode procurar mais entretenimento e contato social no celular.

Os estudos populacionais disponíveis ainda não conseguem separar completamente essas duas possibilidades.

Não é apenas uma questão de contar horas

Outro ponto importante é que nem todo tempo diante de uma tela produz o mesmo efeito.

Passar duas horas conversando com amigos, estudando ou assistindo a um filme não necessariamente equivale a passar o mesmo período navegando compulsivamente por redes sociais durante a madrugada.

Por isso, os pesquisadores preferem falar em “uso problemático de meios digitais” em vez de simplesmente estabelecer um número universal de horas considerado perigoso.

Outras pesquisas recentes reforçam essa complexidade. Um estudo publicado em 2026 na Frontiers in Public Health analisou mais de 103 mil adolescentes chineses e encontrou uma associação positiva entre dependência de celular e sintomas depressivos. O ambiente familiar, porém, modificava significativamente essa relação.

Isso sugere que fatores sociais, familiares e econômicos também precisam entrar na equação.

Sono, atividade física e saúde mental entram na mesma discussão

Atividade Física (2)
© Gabin_Vallet – Pexels

Continua após a publicidade


Os possíveis efeitos também não terminam na depressão.

A revisão encontrou associações entre uso problemático de meios digitais e problemas de saúde mental, alterações do sono e menor atividade física.

Esses fatores podem ainda interagir entre si. Ficar conectado até tarde pode reduzir o tempo de sono; dormir menos pode prejudicar o humor e a concentração; e passar longos períodos sentado pode substituir atividades físicas.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia também pode produzir benefícios.

Comunidades online podem oferecer apoio social para jovens que se sentem isolados, videogames podem estimular determinadas formas de interação e ferramentas digitais podem ampliar o acesso à educação e a informações sobre saúde.

O problema pode estar no ambiente digital que foi criado

A principal mensagem da pesquisa, portanto, não é simplesmente que celulares provocam depressão.

Os autores propõem uma discussão mais ampla: crianças e adolescentes estão crescendo em um ambiente híbrido no qual o mundo digital se tornou parte estrutural da vida cotidiana.

E esse ambiente é controlado, em grande medida, por plataformas que possuem informações extremamente detalhadas sobre o comportamento dos usuários, enquanto pesquisadores independentes têm acesso limitado a esses dados.

É justamente essa falta de informações que dificulta descobrir quais características das plataformas representam maiores riscos e quais podem trazer benefícios.

Depois de reunir evidências envolvendo milhões de jovens, a questão começa a deixar de ser apenas quanto tempo uma criança passa olhando para uma tela. O desafio agora é entender o que ela está fazendo durante esse tempo — e como o mundo digital ao seu redor está sendo projetado.

 

Veja todas notícias sobre Tecnologia

Publicidade