Durante décadas, a presença econômica da China na América Latina esteve associada principalmente à compra de minério de ferro, cobre, soja e outras matérias-primas. Entretanto, essa relação mudou profundamente. Empresas chinesas passaram a investir também em portos, ferrovias e redes de energia. Em um país sul-americano, essa expansão chegou a um ponto especialmente significativo: companhias controladas pelo Estado chinês adquiriram praticamente toda a distribuição elétrica de sua capital, reacendendo um debate sobre soberania e infraestrutura crítica.

Duas compras bilionárias colocaram a eletricidade de Lima nas mãos de estatais chinesas

A capital do Peru, Lima, possui mais de dez milhões de habitantes e depende de duas grandes áreas de concessão para distribuir eletricidade.

A região sul é atendida pela Luz del Sur, enquanto a parte norte está sob responsabilidade da Pluz Energía, anteriormente conhecida como Enel Distribución Perú.

O que chama atenção é quem controla essas empresas.

Em 2020, a China Yangtze Power, integrante do grupo estatal China Three Gorges, adquiriu 83,6% da Luz del Sur por aproximadamente US$ 3,59 bilhões.

Quatro anos depois, outra companhia estatal chinesa, a China Southern Power Grid International, comprou a antiga operação peruana da Enel por quase US$ 3 bilhões.

Com essas transações, praticamente toda a distribuição de eletricidade da capital peruana passou a ser controlada por empresas pertencentes ao Estado chinês, embora sejam grupos empresariais distintos.

Segundo informações do regulador peruano Osinergmin, as duas distribuidoras atendem, juntas, mais de três milhões de clientes no país.

Isso representa aproximadamente um terço dos usuários de eletricidade do Peru.

A dimensão dessas operações demonstra que a presença chinesa deixou de se concentrar apenas na exploração de recursos naturais.

Agora, ela também alcança a infraestrutura responsável por levar energia diretamente às residências e empresas.

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A China também está investindo nas usinas que produzem energia

O interesse chinês pelo setor elétrico peruano não termina nas redes de distribuição.

A China Three Gorges também controla a hidrelétrica de Chaglla, localizada na região de Huánuco, com capacidade superior a 450 megawatts.

Outro empreendimento é San Gabán III, em Puno, que começou a operar em 2025.

Além disso, a Luz del Sur participa da operação de instalações hidrelétricas e de um parque eólico no litoral sul peruano.

Estimativas indicam que investimentos chineses já estão associados a aproximadamente 10% da geração elétrica nacional.

O potencial de expansão continua elevado.

Segundo o Ministério de Energia e Minas do Peru, o país possui cerca de 70 gigawatts de potencial hidrelétrico e aproximadamente 20 gigawatts de potencial eólico.

Grande parte desses recursos ainda não foi aproveitada.

Para investidores, isso representa oportunidades de ampliar a capacidade energética. Para o governo peruano, entretanto, também surge uma questão: como receber investimentos estrangeiros sem comprometer a supervisão de serviços essenciais?

Por que o controle estrangeiro da rede elétrica gera preocupação?

A distribuição de eletricidade é considerada uma infraestrutura crítica porque conecta o sistema energético a hospitais, indústrias, estabelecimentos comerciais e residências.

Uma interrupção prolongada pode afetar praticamente todas as atividades de uma cidade.

Por isso, a concentração dessas operações em empresas estatais estrangeiras provoca discussões sobre segurança energética, concorrência e capacidade de fiscalização.

O analista peruano Pedro Yaranga defende o fortalecimento das regras de proteção aos ativos estratégicos do país.

Uma preocupação concreta envolve a possibilidade de empresas de um mesmo grupo participarem tanto da geração quanto da distribuição de energia.

Nessa situação, contratos entre companhias relacionadas poderiam criar riscos concorrenciais e influenciar os custos do serviço.

Para reduzir esses problemas, o órgão peruano de defesa da concorrência, Indecopi, autorizou a aquisição da antiga Enel Distribución com condições.

Entre as exigências estão mecanismos de contratação de energia por meio de licitações supervisionadas ou procedimentos competitivos e transparentes.

O objetivo é limitar possíveis conflitos de interesse e proteger os consumidores.

Especialistas discordam sobre os riscos — e o debate já chegou ao Brasil

Apesar das preocupações, nem todos os especialistas consideram que a presença chinesa represente, por si só, uma ameaça.

O ex-diretor-geral de Eletricidade do Peru Roberto Tamayo destaca que a legislação avalia a concentração econômica considerando empresas e grupos empresariais, e não simplesmente a nacionalidade dos investidores.

Assim, as duas distribuidoras chinesas são tratadas juridicamente como operadores diferentes.

Também não existem evidências apresentadas de que Pequim tenha utilizado essas redes elétricas estrangeiras para exercer pressão política.

O fenômeno, entretanto, não está restrito ao Peru.

No Chile, a estatal chinesa State Grid controla a distribuidora CGE.

No Brasil, a mesma empresa participa de grandes projetos de transmissão de energia, incluindo linhas destinadas a transportar eletricidade por longas distâncias.

Esses investimentos podem contribuir para ampliar e modernizar a infraestrutura energética, mas também reforçam a importância de regras transparentes e fiscalização independente.

O verdadeiro desafio para os países sul-americanos não é apenas identificar quem possui as empresas de eletricidade, mas garantir que o serviço continue submetido a normas nacionais eficazes.

O caso de Lima demonstra como a influência econômica chinesa na região está se transformando.

Antes associada principalmente à compra de matérias-primas, ela agora alcança estruturas essenciais para o funcionamento de cidades inteiras.

E essa mudança coloca uma pergunta cada vez mais importante na agenda latino-americana: como equilibrar a necessidade de investimentos com o controle regulatório de serviços dos quais milhões de pessoas dependem diariamente?

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