A possibilidade de existir IA que se replica sozinha entre dispositivos ligados à Internet poderá estar mais próxima de se tornar realidade. Uma investigação da Anthropic indica que modelos de inteligência artificial com menos de 30 mil milhões de parâmetros já conseguem executar várias das operações necessárias para se propagarem entre equipamentos, embora ainda não tenham demonstrado essa capacidade integralmente em condições reais.

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O principal risco identificado pelos investigadores está na possibilidade de estes sistemas utilizarem equipamentos vulneráveis, como televisores Android e eletrodomésticos inteligentes, para criar uma rede distribuída de execução de IA, sem dependerem de centros de dados. Ao contrário de uma infraestrutura centralizada, uma rede deste tipo não teria um único ponto de controlo que permitisse interromper todas as cópias.
Modelos de IA já conseguem executar várias etapas da propagação
A investigação, publicada pela Anthropic a 12 de outubro de 2026, analisou a capacidade dos modelos de IA para identificar equipamentos, obter acesso a sistemas, instalar o software necessário à execução de modelos e continuar o processo noutros dispositivos.
Os resultados mostram que os modelos pequenos já conseguem completar muitas destas operações individualmente. Num dos testes, um modelo com 9 mil milhões de parâmetros conseguiu configurar a execução de IA em oito dos nove tipos de hardware avaliados.
As dificuldades surgem quando os sistemas precisam de coordenar todas as etapas sem intervenção humana. Os investigadores verificaram que os modelos mais pequenos continuam a cometer erros durante sequências prolongadas, o que impede uma propagação autónoma consistente.
Nos testes simplificados, o GLM-5.2 conseguiu completar a sequência experimental nos oito equipamentos de destino em quatro das cinco tentativas. Na quinta, alcançou sete.
Existe, contudo, uma distinção técnica. O GLM-5.2 foi utilizado para configurar e propagar a execução de um modelo mais pequeno, o Llama 3.1 8B. Os investigadores recorreram também a uma infraestrutura de apoio para executar o modelo responsável pelas operações e eliminaram algumas barreiras de segurança, incluindo a autenticação numa das interfaces de acesso aos equipamentos.
Por esse motivo, os resultados demonstram a capacidade de coordenar o processo experimental, mas não comprovam que o GLM-5.2 consiga copiar-se e executar-se autonomamente numa rede real.
A investigação aprofunda uma preocupação já identificada pela Anthropic. Em setembro, a empresa tinha alertado para a maior autonomia da IA em ciberataques, após documentar operações nas quais agentes executaram tarefas durante horas ou dias sem supervisão humana contínua.
Televisores Android podem fornecer capacidade de processamento
A Anthropic também procurou determinar se equipamentos de baixo custo poderiam executar modelos de IA sem recorrer aos processadores especializados utilizados nos centros de dados.
Numa demonstração separada, os investigadores distribuíram o modelo Gemma4-26B-A4B por 15 dispositivos Android TV de baixo custo, ligados entre si. Cada equipamento tinha 4 GB de memória RAM e custou aproximadamente 55 dólares.
O sistema conseguiu executar o modelo, embora a velocidade tenha ficado limitada a aproximadamente 0,39 tokens por segundo. Trata-se de um desempenho reduzido, mas suficiente para demonstrar a viabilidade técnica da execução distribuída neste tipo de hardware.
Esta experiência não envolveu a infeção autónoma dos equipamentos. Os dispositivos foram preparados e ligados pelos investigadores.
As duas experiências demonstram capacidades distintas. A primeira avalia a coordenação das operações necessárias à propagação. A segunda confirma que modelos de IA podem ser executados numa rede de equipamentos Android de baixo custo.
A combinação destas capacidades poderá permitir, no futuro, que sistemas de IA utilizem redes de equipamentos comprometidos para manter a sua própria execução.
IA que se replica sozinha poderá tornar-se viável ainda em 2026
A Anthropic considera que modelos com menos de 30 mil milhões de parâmetros poderão atingir, até ao final de 2026, um nível de capacidade semelhante ao demonstrado pelo GLM-5.2 nos testes simplificados.
A previsão resulta de uma extrapolação da evolução histórica dos modelos pequenos, com base num índice geral de capacidades. Não corresponde a uma demonstração de que a replicação autónoma estará operacional nessa data.
Os investigadores reconhecem que a evolução das capacidades gerais não permite determinar com precisão quando um modelo conseguirá completar todas as etapas de propagação em condições reais.
A dimensão do modelo também constitui uma limitação. Os sistemas mais capazes exigem recursos computacionais superiores aos disponíveis em muitos equipamentos domésticos. Os modelos mais pequenos, embora mais fáceis de executar nesses dispositivos, ainda não demonstraram a mesma fiabilidade na coordenação de operações complexas.
A previsão da Anthropic pressupõe que estas duas limitações possam ser ultrapassadas nos próximos meses.
Uma ameaça diferente das redes tradicionais de dispositivos infetados
As redes de dispositivos comprometidos, conhecidas como botnets, não são uma novidade na cibersegurança. Em 2024, um alerta internacional sobre uma botnet associada à China identificou uma infraestrutura com mais de 260.000 equipamentos comprometidos, baseada numa variante do malware Mirai.
A diferença apontada pela Anthropic está na capacidade de adaptação dos modelos de IA.
Enquanto o malware tradicional depende, em grande medida, de instruções previamente programadas, um agente de IA poderá analisar equipamentos desconhecidos, adaptar procedimentos e reutilizar estratégias que tenham funcionado em tentativas anteriores.
Uma rede deste tipo também poderia distribuir a execução de um modelo por vários equipamentos, o que dificultaria a sua identificação e interrupção.
A propagação não seria necessariamente rápida. As estimativas apresentadas no estudo apontam para processos que poderiam demorar dias, sobretudo devido às limitações de processamento dos dispositivos utilizados.
Os investigadores consideram ainda que a transferência dos parâmetros dos modelos e a comunicação entre equipamentos deixariam padrões de tráfego potencialmente identificáveis.
Entre as medidas de defesa analisadas estão a monitorização das comunicações, o isolamento de equipamentos comprometidos e a melhoria das configurações de segurança dos dispositivos ligados à Internet.
A Anthropic não demonstrou a existência de um modelo capaz de se replicar autonomamente em ambientes reais sem controlo humano. A investigação identifica capacidades que poderão tornar esse cenário tecnicamente viável, mas não estabelece quando essa possibilidade se poderá concretizar.
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