Você pode nunca ter instalado um assistente de inteligência artificial e, ainda assim, acabar fazendo parte da memória de um deles. Essa possibilidade deixou de ser apenas uma preocupação teórica depois que pesquisadores analisaram o funcionamento de uma nova ferramenta da Meta. O sistema foi projetado para conhecer profundamente seus usuários, mas também pode reunir detalhes sobre pessoas próximas, incluindo aquelas que jamais autorizaram diretamente esse tipo de acompanhamento.

Meta desenvolveu uma inteligência artificial que conhece as pessoas ao seu redor

A Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, lançou em setembro de 2026 o Muse, um agente de inteligência artificial desenvolvido para executar tarefas pessoais e profissionais.

Diferentemente dos chatbots tradicionais, que geralmente respondem a perguntas, o Muse pode acessar serviços conectados, organizar compromissos, enviar mensagens e ajudar a administrar atividades cotidianas.

O diferencial está em sua capacidade de memória.

O assistente foi projetado para lembrar informações compartilhadas pelo usuário, identificar preferências e utilizar esse conhecimento em interações futuras.

Entretanto, uma investigação publicada pela revista Wired revelou que o sistema também possui instruções para organizar informações sobre outras pessoas.

O pesquisador independente de segurança Karan Joshi conseguiu acessar arquivos de instruções internas do Muse utilizando a própria interface de conversação.

Os documentos descrevem um mecanismo capaz de criar páginas individuais sobre familiares, parceiros, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas mencionadas pelo usuário.

A descoberta levanta uma questão importante: até que ponto alguém pode controlar suas informações pessoais quando elas são compartilhadas por terceiros com uma inteligência artificial?

O sistema pode atualizar informações sobre amigos e familiares a cada hora

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© Richard Williams – Unsplash

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As instruções examinadas pelos pesquisadores descrevem um processo de organização de informações que pode ser executado a cada hora.

O objetivo é construir uma espécie de memória estruturada sobre as pessoas que fazem parte da vida do usuário.

Esses registros podem incluir informações sobre profissão, localização, interesses pessoais, acontecimentos importantes e características dos relacionamentos.

O sistema também pode registrar aniversários, viagens, mudanças de residência e assuntos mencionados anteriormente em conversas.

Uma das funções descritas procura identificar oportunidades para fortalecer relações pessoais.

Por exemplo, a inteligência artificial poderia lembrar que determinado amigo gosta de café, sugerir um restaurante adequado ou recomendar que o usuário retome uma conversa importante.

A proposta parece conveniente, mas envolve informações sobre indivíduos que talvez nem saibam que estão sendo mencionados.

A investigação da Wired sobre os perfis criados pelo Muse destaca que esses registros podem ser ampliados gradualmente, conforme novas informações ficam disponíveis.

Isso não significa que a Meta tenha criado um banco de dados universal com perfis completos de todas essas pessoas. A descoberta diz respeito às capacidades e instruções de memória do agente, cujo conteúdo depende das informações às quais cada usuário permite acesso.

O maior problema envolve pessoas que nunca utilizaram a ferramenta

A principal preocupação dos especialistas não está apenas na quantidade de informações armazenadas.

O problema é que os dados podem envolver terceiros que não participaram da decisão de utilizar o serviço.

Imagine que uma pessoa conecte suas mensagens, agenda e correio eletrônico ao Muse.

Esses serviços podem conter informações sobre colegas de trabalho, familiares, clientes e amigos.

Mesmo sem utilizar o aplicativo, essas pessoas podem aparecer nos registros organizados pela inteligência artificial.

Carissa Véliz, professora associada do Instituto de Ética em Inteligência Artificial da Universidade de Oxford, alerta que os sistemas modernos conseguem aprender não apenas com informações fornecidas diretamente, mas também com inferências feitas a partir de diferentes dados.

Essas conclusões podem estar corretas ou equivocadas.

Um assistente pode, por exemplo, interpretar incorretamente a proximidade entre duas pessoas ou registrar uma informação desatualizada.

Quando essas interpretações passam a orientar recomendações e decisões automatizadas, os erros podem produzir consequências concretas.

Meta afirma que os usuários mantêm controle sobre suas informações

A empresa defende que o Muse foi desenvolvido com mecanismos específicos de segurança e privacidade.

Segundo a Meta, cada usuário possui uma máquina virtual dedicada, na qual são armazenados os dados e as informações utilizadas pelo assistente.

A companhia afirma que essas estruturas são isoladas umas das outras, impedindo que diferentes agentes acessem diretamente os ambientes de outros usuários.

Também existem ferramentas para apagar memórias, desconectar serviços e consultar registros das atividades realizadas.

Determinadas ações, como enviar mensagens ou realizar compras, exigem confirmação humana.

Na apresentação oficial do Muse, a Meta explica que a personalização depende das informações disponibilizadas voluntariamente pelo usuário.

A empresa argumenta que compreender relações pessoais permite oferecer sugestões mais relevantes e executar tarefas com maior precisão.

Entretanto, essas proteções não resolvem completamente a questão do consentimento das pessoas mencionadas nos dados de terceiros.

Apple e Amazon também enfrentam o desafio dos agentes autônomos

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© Pexels

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A discussão acontece em um momento de rápida expansão dos agentes de inteligência artificial.

Essas ferramentas prometem substituir parte das interações tradicionais com aplicativos, executando tarefas diretamente em nome das pessoas.

Mas essa autonomia exige acesso a informações cada vez mais sensíveis.

Empresas como Apple e Amazon vêm adotando restrições e mecanismos de proteção para controlar como agentes externos interagem com seus serviços.

O desafio envolve equilibrar conveniência, segurança e acesso autorizado aos dados.

Quanto mais informações um agente recebe, maior pode ser sua capacidade de personalização. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de limitar permissões e evitar usos indevidos.

O que muda para a privacidade dos brasileiros?

No Brasil, a discussão também envolve a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que estabelece princípios para o tratamento de informações pessoais.

A legislação prevê requisitos como finalidade, necessidade, transparência e existência de uma base legal adequada para o tratamento de dados.

Isso não significa que a criação de qualquer registro sobre terceiros seja automaticamente ilegal. A avaliação depende das circunstâncias, das informações utilizadas e das responsabilidades dos envolvidos.

Para os usuários, algumas precauções continuam relevantes: revisar permissões, evitar conectar serviços desnecessários e compreender quais informações podem ser armazenadas.

Também é importante lembrar que compartilhar conversas com um assistente pode expor detalhes sobre outras pessoas.

O caso do Muse evidencia uma transformação na privacidade digital.

Durante anos, a preocupação principal foi o que as plataformas sabiam sobre seus próprios usuários. Agora, a inteligência artificial amplia essa questão: o que uma empresa pode descobrir sobre alguém a partir das informações fornecidas por outras pessoas?

A resposta ainda está sendo construída por pesquisadores, empresas e autoridades reguladoras.

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