Todos os dias, cidadãos apresentam reclamações, ideias e propostas para melhorar escolas, hospitais, transportes e outros serviços públicos. Entretanto, grande parte dessas contribuições acaba perdida entre formulários, plataformas digitais e processos burocráticos. E se a inteligência artificial pudesse transformar esse enorme volume de informações em soluções concretas? Uma especialista em inovação governamental apresentou uma abordagem que pode mudar a maneira como os governos escutam a população e tomam decisões.

Inteligência artificial pode transformar milhares de sugestões em políticas públicas

A inteligência artificial pode ajudar governos a identificar problemas sociais, organizar propostas da população e melhorar a prestação de serviços públicos. Mas existe uma condição fundamental: as instituições precisam ter capacidade de transformar essas informações em decisões concretas.

Essa foi a principal mensagem de Beth Simone Noveck, diretora do laboratório de inovação pública The GovLab e professora da Northeastern University, nos Estados Unidos, durante uma conferência realizada na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

A apresentação integrou o III Congresso Internacional de Estado Aberto e Governança, que reuniu especialistas para discutir transparência, participação cidadã e inovação nas administrações públicas.

Segundo Noveck, a dificuldade dos governos não está necessariamente na ausência de ideias. Muitas vezes, o problema é processar o enorme volume de contribuições recebidas.

Uma prefeitura pode receber milhares de reclamações sobre transporte, iluminação ou atendimento médico, mas não conseguir identificar rapidamente quais problemas são mais frequentes ou urgentes.

Ferramentas de inteligência artificial podem classificar essas manifestações, reconhecer assuntos recorrentes e produzir análises que ajudem os gestores a estabelecer prioridades.

O objetivo não é permitir que algoritmos decidam sozinhos como os recursos públicos serão utilizados, mas oferecer informações mais organizadas para apoiar decisões humanas.

Um experimento com milhares de cidadãos revelou o tamanho do desafio

Governos podem estar ignorando milhares de soluções para problemas públicos, e a IA pode revelar onde elas estão
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Durante sua apresentação, Noveck recuperou uma experiência relacionada à preparação dos primeiros 100 dias do governo de Barack Obama, nos Estados Unidos.

A iniciativa reuniu mais de 125 mil participantes e aproximadamente 44 mil propostas.

O volume de contribuições demonstrou o interesse da população em participar das decisões governamentais, mas também revelou uma dificuldade operacional.

Como analisar dezenas de milhares de ideias sem ignorar propostas relevantes?

Tradicionalmente, esse trabalho exige equipes responsáveis por ler, classificar, comparar e sintetizar informações.

Com sistemas de inteligência artificial, parte dessas tarefas pode ser automatizada, permitindo que servidores públicos concentrem seus esforços na avaliação das propostas e na implementação de soluções.

Uma análise da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicada em junho de 2026, examinou 50 aplicações de IA em processos de participação cidadã de 22 países.

O relatório identificou possibilidades como tradução automática, organização de opiniões, assistência virtual e facilitação de debates públicos.

Entretanto, a organização ressalta que os resultados ainda dependem da qualidade dos sistemas e da capacidade institucional de utilizar as informações produzidas.

Incêndios na Califórnia mostram como a tecnologia pode ajudar

Um dos exemplos apresentados por Noveck envolveu a participação cidadã após incêndios registrados na Califórnia.

Nesse caso, ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas para organizar contribuições de milhares de pessoas e identificar propostas destinadas a melhorar a resposta a emergências.

O processo resultou na formulação de 19 propostas de políticas públicas, das quais cinco avançaram para etapas posteriores.

O exemplo demonstra como experiências individuais podem contribuir para identificar problemas que nem sempre aparecem nas análises tradicionais dos governos.

Moradores de regiões afetadas por desastres, por exemplo, podem oferecer informações sobre dificuldades de evacuação, comunicação com autoridades ou distribuição de recursos.

Quando essas contribuições são analisadas em conjunto, podem revelar padrões importantes para o planejamento de futuras emergências.

Entretanto, o avanço de cinco propostas não significa necessariamente que todas tenham sido implementadas ou produzido resultados comprovados.

A inteligência artificial facilita a organização das informações, mas a execução das políticas continua dependendo de decisões administrativas, recursos e acompanhamento.

Escolas também podem aproveitar a IA para reduzir tarefas burocráticas

Governos podem estar ignorando milhares de soluções para problemas públicos, e a IA pode revelar onde elas estão
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A especialista apresentou ainda o exemplo de uma professora australiana que desenvolveu uma aplicação para avaliar habilidades de comunicação em inglês.

A ferramenta foi compartilhada com outros docentes e posteriormente adotada em diferentes escolas e distritos.

A iniciativa permitiu reduzir parte do trabalho relacionado às avaliações, liberando tempo para atividades de acompanhamento dos estudantes.

O exemplo ilustra uma das possibilidades mais relevantes da inteligência artificial no setor público: automatizar tarefas repetitivas sem substituir necessariamente os profissionais responsáveis pelos serviços.

Na educação, isso pode incluir a organização de informações e a preparação de materiais de apoio. Na saúde, sistemas semelhantes podem auxiliar na gestão de agendamentos e na identificação de problemas administrativos.

O benefício, entretanto, precisa ser avaliado em cada contexto, especialmente quando envolve informações pessoais ou decisões que afetam direitos.

O Brasil pode aproveitar essa transformação?

A discussão também é relevante para o Brasil, onde municípios, estados e órgãos federais recebem grandes volumes de manifestações por ouvidorias, consultas públicas e plataformas digitais.

A inteligência artificial poderia ajudar a identificar reclamações recorrentes, comparar necessidades entre regiões e facilitar o acompanhamento das respostas oferecidas pelo poder público.

Mas a tecnologia também apresenta riscos.

Algoritmos podem reproduzir preconceitos presentes nos dados, interpretar incorretamente sugestões e favorecer grupos com maior acesso à internet.

Em seu relatório sobre inteligência artificial na administração pública, a OCDE destaca a necessidade de transparência, supervisão humana e mecanismos de inclusão digital.

No Brasil, a proteção de dados pessoais também exige atenção à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Para Noveck, o verdadeiro potencial da inteligência artificial não está apenas em tornar governos tecnologicamente mais avançados.

O desafio é utilizar essas ferramentas para aproximar instituições e cidadãos, garantindo que as contribuições recebidas tenham possibilidades reais de influenciar os serviços públicos.

A tecnologia pode ajudar os governos a escutar milhares de pessoas simultaneamente. Mas transformar essa escuta em melhorias concretas continua sendo uma responsabilidade humana.

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