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Recentemente, as redes sociais foram inundadas por um vídeo que mostra trabalhadores a utilizar headsets enquanto realizam tarefas. O que começou como uma curiosidade digital transformou-se num debate global: estarão os trabalhadores a ensinar as máquinas que os vão substituir?

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Nos últimos dias, um vídeo tem sido replicado por várias pessoas: filmado no interior de uma fábrica que se diz ser na Índia, o conteúdo mostra filas de trabalhadores com headsets, a filmar cada movimento das suas mãos enquanto realizam as suas tarefas habituais.
A teoria que ganhou mais força online é a de que as câmaras estariam a capturar os movimentos das mãos dos trabalhadores em perspetiva de primeira pessoa, com o objetivo de treinar modelos de Inteligência Artificial (IA) e sistemas robóticos.
A ideia é simples: para que uma máquina aprenda a dobrar tecido, a montar peças ou a executar qualquer tarefa física com precisão, precisa de observar como um humano o faz, repetidamente, em detalhe, a partir do ponto de vista de quem trabalha.
O vídeo, que encaixa nessa abordagem da tecnologia, não tardou a receber reações: "Estão a treinar os seus próprios substitutos em tempo real, no local de trabalho, e a ser pagos para isso", escreveu uma das contas que partilhou o vídeo.
🇮🇳 Factory workers in India are wearing head-mounted cameras so AI can watch exactly how humans do physical work. Every hand movement, every adjustment, every shortcut.
The workers are training their own replacements in real time, on the job, getting paid to do it.
The most… pic.twitter.com/EB9dKnfd3F
— Mario Nawfal (@MarioNawfal) April 13, 2026
Debate ético sobre treino da IA está apenas a começar
Apesar de a autenticidade e o contexto exato do vídeo não terem sido publicamente confirmados de forma conclusiva, não sendo claro a que empresa pertence a fábrica e se os trabalhadores tinham conhecimento pleno do propósito das câmaras, o vídeo mostrou algo que já está a acontecer.
Empresas como a Micro1, sediada na Califórnia, já operam neste modelo: contratam trabalhadores em dezenas de países para gravar, com headsets, tarefas domésticas e físicas do quotidiano, vendendo depois esses dados a empresas de robótica.
Assim, ainda que o vídeo viral não tenha um contexto totalmente estabelecido, o modelo de negócio que representa existe e está a crescer.
A polémica dividiu-se em duas correntes:
- Por um lado, muitos viram nas imagens algo de profundamente perturbador: trabalhadores vulneráveis, frequentemente mal pagos, a contribuir involuntária ou inconscientemente para a sua própria substituição, sem proteção legal clara nem transparência por parte das empresas.
- Por outro lado, houve quem argumentasse que se trata de uma leitura demasiado catastrofista, pois a automação elimina tarefas, mas não necessariamente empregos inteiros, e a adaptação tecnológica é uma constante histórica do mercado de trabalho.
De qualquer forma, a recolha de dados humanos para treinar IA é uma indústria em crescimento e os trabalhadores que a alimentam podem não estar completamente informados sobre o destino final do seu contributo. Por isso, o debate sobre quem deve beneficiar e quem deve ser protegido nesta transição está apenas a começar.

Entretanto, a questão pode ir além das tarefas manuais: um artigo do The Guardian de abril de 2026 mostrou que profissionais experientes, como médicos, especialistas em tecnologia e outros técnicos, estão a rever, rotular e avaliar respostas de modelos de IA, por forma a ajudá-los a melhorar o desempenho em áreas complexas.
O relatório afirma que o objetivo do treino é elevar os modelos até ao ponto em que consigam desempenhar um trabalho tão bem quanto um humano.
A ligação aos "dados egocêntricos"
Conforme já reforçámos, a origem exata das imagens não é clara. Contudo, pode estar de alguma forma ligada à Build AI, uma startup fundada por Eddy Xu. Com o objetivo de "recolher dados humanos para acelerar o desenvolvimento de robôs de uso geral", o jovem abandonou a Universidade de Columbia, em abril de 2025, dedicando-se a este negócio em expansão.

Eddy Xu, fundador da Build AI, convenceu milhares de operários do Sudeste Asiático a utilizarem headsets para gravar vídeos de si próprios a trabalhar, com o objetivo de treinar modelos de IA. Fonte: @eddybuild/X, via mikekalil.com
A Build AI desenvolveu os seus próprios headsets de gravação e foi escalando a recolha de dados em fábricas da Ásia. O percurso foi feito por fases:
- Primeiro, o Egocentric-10K (10 mil horas de vídeo);
- Depois, o Egocentric-100K;
- Agora, o Egocentric-1M.
Este último foi apresentado pelo próprio Xu como "o maior dataset de vídeo egocêntrico do mundo" e "o próximo passo para construir a Internet para a IA física".
introducing Egocentric-1M.
the largest egocentric video dataset in the world, and our next step in building the internet for physical AI. https://t.co/kdhv9RwYPW pic.twitter.com/UYgvmwlYgn
— Eddy Xu (@eddybuild) April 8, 2026
Por sua vez, o Egocentric-100K contém mais de 100 mil horas de vídeo em primeira pessoa, captado por 14.228 trabalhadores que usaram os óculos durante uma média de sete horas, incluindo quase 11 mil milhões de frames e mais de dois milhões de clips.
O dataset foi disponibilizado em open-source no Hugging Face e, em poucas semanas, terá acumulado quase dois milhões de visualizações e 18.000 downloads.

Operários de fábrica a utilizar headsets de IA da Build AI para recolha de dados. Fonte: @eddybuild/X, via mikekalil.com
O que são "dados egocêntricos" e para que servem?
Segundo Eddy Xu, os chamados "dados egocêntricos" (em inglês, egocentric data) são "um framework geral de aprendizagem que captura passivamente como os trabalhadores qualificados fazem o seu trabalho".
O dataset destaca-se por ter uma "densidade mais elevada de mãos visíveis e de manipulação" do que os datasets anteriores, num upgrade essencial para treinar modelos que executem tarefas complexas.
A ideia é que um robô aprende melhor a fazer uma tarefa se a observar do ponto de vista de quem a faz, e não de uma câmara externa.
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