Para quem viveu a evolução dos celulares, câmeras e tocadores de música, abandonar um smartphone moderno para recuperar aparelhos limitados pode parecer um enorme retrocesso. Uma parcela da geração Z está fazendo justamente isso. Tecnologias consideradas ultrapassadas voltaram a circular entre jovens que cresceram conectados. A estética retrô ajuda a explicar o fenômeno, mas existe outra motivação ganhando força: reduzir distrações e recuperar algum controle sobre uma vida dominada por notificações e feeds infinitos.
Os aparelhos que ficaram esquecidos nas gavetas voltaram a despertar interesse

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Flip phones, iPods antigos, câmeras instantâneas, câmeras digitais compactas e toca-discos fazem parte de uma tendência que parece contradizer décadas de evolução tecnológica.
Durante anos, a indústria tentou concentrar cada vez mais funções em um único aparelho. O smartphone substituiu câmera, tocador de música, GPS, despertador e dezenas de outros dispositivos.
Agora, alguns jovens estão voluntariamente desfazendo essa concentração.
A geração Z também vem recuperando atividades essencialmente analógicas, como tricô e outras formas de artesanato. Em vez de simplesmente trocar um aplicativo por outro, parte desse movimento busca experiências que não dependam constantemente de uma tela.
O psicólogo especializado em mídia Don Grant acredita que a nostalgia pode ter iniciado essa aproximação, mas não explica sozinha por que ela continua.
Existe uma sensação de simplicidade associada a objetos que fazem apenas uma coisa. Uma câmera serve para fotografar. Um tocador reproduz música. Um telefone básico permite fazer chamadas e enviar mensagens sem oferecer imediatamente uma sequência interminável de aplicativos disputando atenção.
E alguns números indicam que o interesse ultrapassou as redes sociais.
Um tipo de celular antigo cresceu 148% entre os mais jovens

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Segundo dados citados pela Movieguide, as compras de celulares flip entre consumidores de 18 a 24 anos aumentaram 148% entre 2021 e 2024.
É um contraste curioso para uma geração que cresceu justamente durante a consolidação do smartphone.
Outra tendência ajuda a entender o movimento.
O Brick, pequeno dispositivo criado para bloquear aplicativos e dificultar o acesso compulsivo ao celular, registrou crescimento anual de 600% nas vendas, segundo dados citados na reportagem.
A proposta é deliberadamente criar uma barreira física.
Em vez de depender apenas da força de vontade para abandonar o celular antes de dormir ou evitar abrir uma rede social automaticamente, o usuário pode programar períodos nos quais determinadas funções ficam inacessíveis.
O interesse aparece enquanto o tempo dedicado às plataformas sociais mostra sinais de redução. Desde 2022, houve queda no tempo gasto nas redes, segundo dados mencionados pela CNBC e reproduzidos pela publicação.
Jason Dorsey, presidente do Center for Generational Kinetics, observa que parte da geração Z e dos millennials está abandonando completamente algumas redes, enquanto um grupo maior tenta simplesmente limitar sua utilização.
A nostalgia por uma época que muitos deles nunca viveram
Existe ainda um detalhe fascinante nessa volta ao passado: muitos jovens sentem nostalgia por períodos dos quais praticamente não possuem lembranças.
Uma pesquisa da GWI apontou que mais de um terço da geração Z sente nostalgia dos anos 1990, apesar de boa parte desse grupo ter nascido somente na década seguinte.
É uma espécie de nostalgia emprestada.
Câmeras com qualidade inferior às atuais, fones com fios, CDs, consoles portáteis e outros objetos ganham valor justamente por apresentarem limitações que a tecnologia moderna tentou eliminar.
A tendência também aparece na moda.
As vendas em lojas de segunda mão citadas pela reportagem cresceram 22% em relação ao ano anterior, e a geração Z aparece como particularmente interessada nesse tipo de consumo.
Para esses jovens, recuperar objetos antigos pode significar mais do que adotar uma estética Y2K. Existe uma busca por uma época percebida como menos acelerada e menos dominada por algoritmos.
Naturalmente, isso não significa que toda a geração Z esteja abandonando smartphones ou rejeitando tecnologias modernas. Pesquisas de uso continuam mostrando forte presença de smartphones e laptops entre jovens.
Talvez o verdadeiro luxo tecnológico agora seja ter menos funções
Existe uma ironia no retorno desses aparelhos.
Durante décadas, fabricantes venderam cada geração tecnológica prometendo adicionar alguma coisa: mais aplicativos, câmeras melhores, telas maiores, conexões mais rápidas e acesso permanente a praticamente qualquer informação.
A nova tendência faz o caminho contrário.
Um celular básico se torna atraente justamente porque não possui dezenas de aplicativos. Uma câmera compacta obriga o usuário a fotografar sem imediatamente publicar a imagem. Um iPod permite ouvir música sem que uma notificação interrompa a experiência.
Isso não representa necessariamente uma rejeição à tecnologia.
É, em muitos casos, uma tentativa de escolher quando ela estará presente.
A geração que cresceu com praticamente toda a vida digital concentrada em uma tela de poucos centímetros começa a experimentar algo que seus pais e avós conheceram naturalmente: aparelhos separados, funções limitadas e momentos em que simplesmente não havia uma conexão disponível.
Depois de anos em que possuir o dispositivo mais avançado representava modernidade, talvez uma parte dos jovens esteja descobrindo outro tipo de privilégio tecnológico.
Ter um aparelho capaz de fazer menos.
[Fonte: Movieguide]
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