Sempre que você faz uma pergunta a uma inteligência artificial, servidores trabalham para produzir a resposta. Esse processamento consome eletricidade e gera calor, assim como acontece com um computador comum, mas em uma escala gigantesca. Durante anos, grande parte dessa energia térmica simplesmente foi descartada. Agora, empresas e governos europeus estão transformando esse desperdício em uma oportunidade: utilizar o calor dos centros de dados para aquecer residências e outros edifícios.
A inteligência artificial está produzindo uma quantidade gigantesca de calor
Os centros de dados funcionam com milhares de processadores, sistemas de armazenamento e equipamentos de comunicação operando continuamente.
Praticamente toda a eletricidade consumida por esses equipamentos acaba transformada em calor.
Para evitar superaquecimento, instalações utilizam sistemas de refrigeração que também demandam energia.
O crescimento da inteligência artificial está ampliando esse desafio.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024, cerca de 1,5% do consumo mundial.
A estimativa é que essa demanda possa mais que dobrar até 2030.
Diante desses números, surge uma pergunta: por que desperdiçar o calor produzido pelos servidores se ele poderia ser utilizado para aquecer edifícios?
Alguns países europeus já começaram a transformar essa possibilidade em projetos reais.
Dinamarca e Finlândia já utilizam calor de servidores para aquecer residências
Na cidade dinamarquesa de Odense, um centro de dados da Meta fornece calor para a rede de aquecimento urbano administrada pela Fjernvarme Fyn.
O funcionamento envolve capturar o calor dos servidores e transferi-lo para um circuito de água.
Bombas de calor elétricas elevam a temperatura até aproximadamente 70 °C a 75 °C, permitindo sua distribuição pela cidade.
A instalação possui capacidade de cerca de 45 megawatts em bombas de calor.
Segundo a Meta, o sistema pode fornecer aquecimento equivalente à demanda de aproximadamente 9 mil residências, embora o cálculo varie conforme as condições consideradas.
Na Finlândia, Microsoft e Fortum anunciaram um projeto ainda mais ambicioso.
O calor produzido por novos centros de dados na região de Espoo deverá alimentar uma rede urbana que atende aproximadamente 250 mil usuários.
A Fortum estima que a iniciativa poderá evitar cerca de 400 mil toneladas de emissões anuais de dióxido de carbono quando estiver plenamente operacional.
Essas projeções, entretanto, dependem da implantação e do desempenho efetivo das instalações.
Se a tecnologia funciona, por que não é utilizada em todos os países?
O primeiro obstáculo é a temperatura.
O calor liberado pelos servidores costuma ser insuficiente para alimentar diretamente sistemas tradicionais de aquecimento urbano.
Por isso, são necessárias bombas de calor, equipamentos que elevam a temperatura, mas também consomem eletricidade.
Sem informações completas sobre esse consumo adicional, torna-se difícil determinar a economia energética real de cada projeto.
Outro problema é a localização.
Para aproveitar o calor, os centros de dados precisam estar próximos de consumidores ou de redes capazes de transportá-lo.
Países nórdicos possuem infraestrutura consolidada de aquecimento urbano e temperaturas baixas durante boa parte do ano.
Em regiões mais quentes, como grande parte do Brasil, a demanda por aquecimento residencial é menor, o que reduz a atratividade desse modelo específico.
Existe ainda a questão financeira.
Na Dinamarca, limitações legais sobre o preço do calor excedente dificultaram investimentos até serem eliminadas em janeiro de 2025.
Mesmo quando o calor é recuperado, os custos de infraestrutura, manutenção e distribuição continuam existindo.

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Uma empresa espanhola quer transformar servidores em sistemas de aquecimento
Além dos grandes centros de dados, empresas menores estão explorando soluções descentralizadas.
A startup espanhola Hotta, fundada em Soria em 2021, desenvolve sistemas que aproveitam o calor de servidores para aquecer água, residências, piscinas e instalações industriais.
A tecnologia utiliza refrigeração líquida, capaz de retirar calor dos componentes eletrônicos com maior eficiência do que sistemas convencionais baseados exclusivamente em ar.
A empresa afirma que sua solução pode proporcionar economias de 35% a 40% em comparação com caldeiras tradicionais.
Entretanto, esses números são estimativas comerciais e não foram apresentados acompanhados de auditoria independente.
A refrigeração líquida também está ganhando espaço em centros de dados dedicados à inteligência artificial, especialmente devido ao calor gerado por processadores de alto desempenho.
A Europa já está criando leis para evitar o desperdício
A União Europeia começou a transformar a recuperação de calor em uma exigência regulatória.
A Diretiva de Eficiência Energética, revisada em 2023, determina que centros de dados acima de 1 megawatt aproveitem seu calor residual ou justifiquem a inviabilidade técnica ou econômica.
A Alemanha estabeleceu exigências progressivas para novas instalações, começando com uma parcela de 10% de reutilização energética e avançando até 20%.
Essas medidas não eliminam o consumo elétrico necessário para operar a inteligência artificial.
Entretanto, permitem aproveitar parte da energia que seria descartada, substituindo outras fontes de aquecimento quando as condições são favoráveis.
O grande avanço não está em fazer a IA consumir menos eletricidade, mas em encontrar uma segunda utilização para a energia já consumida.
À medida que a demanda por processamento cresce, transformar calor desperdiçado em um recurso útil poderá se tornar parte importante da infraestrutura digital do futuro.
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