Imagine entrar em uma reunião, responder perguntas ou explicar seu próprio trabalho sem estar realmente presente. Uma nova geração de avatares com inteligência artificial começa a tornar essa ideia menos distante. A experiência realizada com um jornalista mostrou que essas cópias digitais já conseguem reproduzir aparência e voz enquanto mantêm conversas sobre assuntos específicos. Mas o teste também revelou uma fronteira que a tecnologia ainda não consegue atravessar facilmente.
Não era apenas um vídeo com um rosto digital
Tudo começou quando Alexandru Voica, responsável por assuntos corporativos da Synthesia, apresentou a um jornalista do TechCrunch uma versão virtual de si mesmo.
A empresa trabalha com avatares criados por inteligência artificial e desenvolve ferramentas destinadas principalmente ao ambiente corporativo. Entre suas aplicações estão vídeos de treinamento e sistemas interativos nos quais funcionários podem praticar situações profissionais, como apresentações e conversas de vendas.
Mas esses personagens digitais estão deixando de funcionar apenas como apresentadores de roteiros previamente preparados.
A nova geração consegue interagir.
Durante uma visita às instalações da Synthesia em Nova York, em setembro, o jornalista aceitou experimentar a tecnologia de maneira muito mais pessoal: criar seu próprio gêmeo digital.
O processo não exigiu semanas de produção nem uma complicada sessão em estúdio. Imagens do jornalista foram capturadas e sua voz foi gravada. Esse material serviu para construir uma representação virtual capaz de parecer e soar como ele.
Só que havia um elemento ainda mais interessante. O avatar receberia conhecimento sobre um tema específico para poder responder perguntas sem depender de um roteiro fixo.
A cópia começou a responder perguntas por conta própria
O avatar foi preparado para conversar sobre um artigo relacionado a fraudes em startups financiadas por capital de risco.
A partir daí, diferentes tecnologias passaram a trabalhar em conjunto.
Um sistema converte a pergunta falada em texto. Um modelo de linguagem interpreta o conteúdo e formula uma resposta. Depois, outro mecanismo transforma essa resposta novamente em voz enquanto o avatar reproduz a fala com movimentos visuais sincronizados.
Para quem está diante da tela, o resultado se aproxima de uma conversa com aquela pessoa.
Essa diferença é importante. Avatares digitais não são exatamente novidade. Personagens virtuais capazes de ler textos preparados existem há algum tempo e já aparecem em treinamentos empresariais, apresentações e conteúdos promocionais.
O salto está na interação.
Em vez de assistir passivamente a uma gravação, o usuário pode fazer perguntas e receber respostas diferentes dependendo da conversa.
A experiência, porém, rapidamente mostrou que esse “gêmeo” não era uma cópia completa da pessoa que havia servido de modelo.
Quando recebeu perguntas fora do assunto para o qual tinha sido preparado, encontrou seus limites.
E talvez essa limitação seja justamente uma das características mais importantes da tecnologia.
Seu avatar poderia trabalhar enquanto você faz outra coisa
A ideia de possuir uma versão digital capaz de assumir determinadas tarefas abre possibilidades curiosas.
Um professor poderia criar um avatar para responder dúvidas frequentes sobre determinado conteúdo. Uma empresa poderia disponibilizar versões digitais de especialistas para treinamentos. Executivos poderiam explicar produtos sem precisar repetir a mesma apresentação dezenas de vezes.
No jornalismo, as possibilidades ficam ainda mais provocativas.
Imagine terminar uma reportagem e disponibilizar, junto ao texto, uma versão digital do autor. O leitor poderia perguntar como determinada informação foi obtida, solicitar contexto adicional ou explorar pontos específicos da investigação.
Em vez de simplesmente consumir uma matéria, seria possível “conversar” com uma representação do jornalista.
Isso poderia transformar conteúdos estáticos em experiências interativas.
Também existe uma vantagem óbvia: disponibilidade. O avatar não precisa dormir, viajar ou encontrar espaço na agenda. Em teoria, milhares de pessoas poderiam conversar simultaneamente com versões digitais de uma mesma pessoa.
Mas essa capacidade também conduz diretamente ao problema mais difícil.
Existe algo que uma cópia perfeita ainda não consegue reproduzir

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Comunicação não depende apenas de transmitir informações corretas.
Especialmente no jornalismo, existe uma relação de confiança entre quem produz uma informação e quem a recebe. Contexto, julgamento, experiência e responsabilidade fazem parte dessa relação.
Um avatar pode reproduzir rosto e voz com precisão impressionante. Também pode consultar uma base de conhecimento e construir respostas coerentes.
Isso não significa que ele realmente seja aquela pessoa.
Essa distinção tende a ficar cada vez mais importante conforme avatares se tornarem visualmente convincentes. Se uma versão digital responder algo incorretamente, quem será responsável? O profissional representado pelo avatar? A empresa que desenvolveu o sistema? O modelo de inteligência artificial?
Há ainda questões sobre consentimento, controle da imagem e atualização das informações utilizadas pela cópia virtual.
O experimento mostra, portanto, uma tecnologia que pode ser muito mais relevante do que simplesmente criar vídeos realistas.
A pergunta talvez não seja se teremos um gêmeo digital
A Synthesia já explora aplicações interativas no mundo corporativo. Uma delas permite que funcionários pratiquem determinadas situações profissionais conversando com avatares, recebendo uma experiência mais dinâmica do que assistir a um vídeo convencional.
O caminho sugere que essas representações digitais podem se transformar em uma nova interface para acessar conhecimento.
Em vez de procurar documentos, assistir a vídeos inteiros ou navegar por páginas, poderemos simplesmente conversar com uma representação virtual de alguém.
A tecnologia ainda possui limitações claras. O avatar testado sabia falar sobre aquilo que havia recebido como contexto, mas não carregava toda a experiência, personalidade ou conhecimento do jornalista real.
Mesmo assim, a experiência deixa uma pergunta intrigante.
Durante anos, imaginamos inteligência artificial como um assistente que viveria dentro de uma tela. Agora, ela começa a assumir nosso rosto e nossa voz.
Talvez a questão mais interessante não seja quando teremos uma cópia digital convincente de nós mesmos, mas quanto da nossa presença estaremos dispostos a entregar a ela.
[Fonte: C3]
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