Imagine apresentar sua ideia de negócio a um professor de Harvard, receber críticas detalhadas e repetir a experiência quantas vezes quiser, sem precisar marcar uma reunião. Parece uma oportunidade reservada a poucos estudantes, mas a inteligência artificial está mudando essa realidade. A prestigiada escola de negócios americana começou a utilizar réplicas digitais de seus docentes para treinar empreendedores. Os resultados iniciais chamaram atenção, inclusive por um comportamento inesperado dos participantes.

Harvard criou professores virtuais que podem conversar com alunos a qualquer momento

A Harvard Business School desenvolveu uma experiência educacional que utiliza inteligência artificial para reproduzir o conhecimento, a aparência e o estilo de seus professores.

A iniciativa faz parte do HBS Foundry, um programa online de oito semanas voltado para pessoas interessadas em criar ou desenvolver empresas.

O curso custa US$ 699, valor consideravelmente inferior aos quase US$ 85 mil cobrados por um ano de mensalidade na escola de negócios.

Lançado em abril de 2026, após um projeto-piloto realizado no ano anterior, o programa não oferece diploma nem créditos acadêmicos.

Mesmo assim, aproximadamente 760 empreendedores já concluíram a formação.

Para desenvolver os avatares, sete professores participaram voluntariamente de entrevistas e gravações realizadas com a HeyGen, empresa especializada em vídeos produzidos por inteligência artificial.

O resultado são representações digitais capazes de responder perguntas, analisar apresentações e conversar com os participantes.

Os sistemas procuram reproduzir não apenas os conhecimentos dos docentes, mas também seus critérios de avaliação e sua maneira de orientar empreendedores.

Alunos chegaram a passar dez horas conversando com os clones digitais

Uma das principais atividades do programa consiste em preparar os participantes para situações reais do mundo dos negócios.

Primeiro, os empreendedores apresentam suas ideias aos professores virtuais como se estivessem diante de investidores.

Depois, simulam conversas comerciais e recebem comentários sobre os pontos que precisam melhorar.

Somente após essas etapas enfrentam apresentações com investidores reais.

Os participantes mais promissores podem ser convidados a Harvard para disputar US$ 100 mil em financiamento.

Segundo Tom Eisenmann, um dos codiretores acadêmicos do Foundry, os avatares foram desenvolvidos para questionar argumentos e identificar fragilidades, em vez de simplesmente concordar com os alunos.

O envolvimento surpreendeu a equipe.

Alguns participantes passaram até dez horas consecutivas interagindo com um único professor virtual.

Os responsáveis também perceberam que os estudantes utilizavam mais a ferramenta de conversa quando ela apresentava uma fotografia do docente.

Por isso, decidiram manter esse elemento visual.

Além das interações com inteligência artificial, o curso oferece encontros semanais ao vivo com professores, investidores e fundadores de empresas.

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© Julio Lopez – Unsplash

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Professores reconhecem o potencial da tecnologia, mas também sentem desconforto

Entre os docentes que autorizaram a criação de suas versões digitais estão Jeffrey Bussgang e Shikhar Ghosh.

Bussgang é professor e cofundador da empresa de investimentos Flybridge.

Ghosh, por sua vez, criou oito empresas de tecnologia antes de iniciar sua carreira acadêmica.

Para Ghosh, o objetivo não é substituir professores humanos, mas aproveitar melhor o tempo dedicado ao contato presencial com empreendedores.

Ele também atualiza seu avatar quando modifica suas opiniões sobre determinados assuntos.

Bussgang reconheceu que interagir com uma versão artificial de si mesmo pode provocar uma sensação inquietante, embora os estudantes demonstrem entusiasmo.

Katharina Rings, diretora do projeto, observou que os participantes parecem confiar mais em avatares associados a professores reais do que em assistentes genéricos.

Entretanto, essa familiaridade também apresenta riscos.

Uma réplica digital pode fornecer informações incorretas ou atribuir ao docente opiniões que ele nunca expressou.

A experiência funciona, mas Harvard ainda precisa responder a uma pergunta importante

Apesar das avaliações positivas, ainda não existem estudos de longo prazo demonstrando que o treinamento com avatares produz resultados superiores aos métodos tradicionais.

Segundo Rings, pesquisas internas indicam que os participantes chegam mais confiantes e apresentam propostas mais bem estruturadas.

Entretanto, essas percepções não comprovam, por si só, a eficácia comparativa da tecnologia.

David Joyner, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, alerta para outro problema: avatares criados com gravações antigas podem continuar reproduzindo ideias que seus professores já abandonaram.

No caso de Harvard, os docentes participam da criação e podem revisar suas versões digitais.

A tendência também aparece em outras instituições.

O Imperial College London desenvolveu gêmeos digitais de professores, enquanto o Instituto de Tecnologia da Geórgia utiliza há anos uma assistente educacional baseada em IA chamada Jill Watson.

Segundo Harvard, mais de 100 universidades americanas já experimentaram o modelo do Foundry.

Na União Europeia, regras de transparência previstas na legislação de inteligência artificial também procuram garantir que usuários saibam quando interagem com sistemas artificiais.

A experiência demonstra que a IA pode ampliar o acesso ao conhecimento especializado sem necessariamente substituir os encontros humanos.

Mas deixa uma questão fundamental: se um professor digital consegue orientar estudantes a qualquer momento, como preservar aquilo que torna a presença de um educador real insubstituível?

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