A IA nas empresas portuguesas continua a crescer, mas a maioria das organizações ainda utiliza a tecnologia para tarefas básicas. Segundo o estudo Desbloquear o Potencial de IA em Portugal 2026, realizado pela Strand Partners para a Amazon Web Services (AWS), 51% das empresas já adotaram ferramentas de inteligência artificial. No entanto, apenas 16% das que utilizam IA atingiram um nível avançado de integração nos seus processos.

Utilização de ia nas empresas portuguesas e integração da tecnologia nos processos empresariais.
Imagem conceitual gerada por ia

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Os resultados, divulgados esta segunda-feira, 19 de outubro, mostram uma diferença entre a adoção de ferramentas e a sua utilização estratégica. Entre as empresas que já recorrem à inteligência artificial, 58% concentram-se em aplicações básicas, como chatbots, ferramentas prontas a utilizar e automatização de tarefas rotineiras. A dificuldade em passar da experimentação para uma utilização mais aprofundada constitui um dos principais desafios identificados pelo relatório.

Adoção de IA aumenta, mas integração avançada continua limitada

De acordo com a AWS, a taxa de adoção de inteligência artificial em Portugal registou um crescimento de 24% face ao ano anterior. O estudo indica também uma evolução na forma como as organizações utilizam a tecnologia. A percentagem de empresas que se limitam a aplicações básicas desceu de 65% para 58%.

Esta redução sugere uma passagem gradual para utilizações mais complexas, embora a integração avançada continue limitada. Os 16% identificados pelo relatório correspondem a empresas que já recorrem a múltiplos modelos de IA, sistemas personalizados ou tecnologias de inteligência artificial agêntica e autónoma.

Os benefícios reportados também são significativos. Entre as empresas que adotaram IA, 80% afirmam ter registado ganhos de produtividade e 85% esperam que a tecnologia contribua para o crescimento do negócio nos próximos 12 meses.

Estes resultados refletem a perceção das organizações inquiridas, não uma medição independente dos ganhos económicos. A distinção é relevante, porque a utilização de ferramentas de IA não significa necessariamente que uma empresa tenha melhorado a eficiência dos seus processos ou conseguido resultados financeiros superiores.

Apenas 14% das empresas estão preparadas para a próxima geração de IA

A distância entre a utilização atual e as tecnologias emergentes constitui outro dos resultados do estudo. Apenas 14% das empresas portuguesas afirmam sentir-se muito ou totalmente preparadas para adotar sistemas de próxima geração, como agentes autónomos e soluções avançadas de automatização.

Entre as startups, essa percentagem sobe para 38%, o que sugere uma maior preparação tecnológica neste segmento.

O relatório indica ainda que 62% das empresas que adotaram IA consideram que o ritmo de inovação acelerou nos últimos dois anos. Nas startups, a proporção chega aos 78%.

A adoção de sistemas agênticos representa, contudo, uma mudança em relação à utilização convencional de ferramentas de inteligência artificial. Enquanto um chatbot tradicional responde a pedidos específicos, um agente de IA pode executar sequências de tarefas, recorrer a ferramentas externas e tomar decisões operacionais dentro das permissões definidas.

Esta capacidade aumenta as possibilidades de automatização, mas também exige competências técnicas, integração com os sistemas empresariais e mecanismos de controlo adequados. Numa entrevista publicada pelo TecheNet em julho, Daniel Gomes, fundador e CEO da Masterlink, já apontava a organização dos processos, dos dados e da comunicação entre sistemas como obstáculos à utilização operacional da IA nas empresas.

Falta de competências e financiamento condiciona a evolução

O estudo identifica a escassez de profissionais especializados como o principal obstáculo à integração avançada de IA nas empresas portuguesas.

A dificuldade é apontada por 45% das organizações, acima dos 42% registados no ano anterior. Ao mesmo tempo, 91% antecipam que as competências digitais e de inteligência artificial serão importantes para o respetivo setor nos próximos cinco anos.

O financiamento representa outra limitação. Cerca de 40% das empresas referem insuficiência de recursos financeiros internos e 54% afirmam não dispor de um orçamento especificamente destinado à inteligência artificial.

A pressão regulatória também surge entre os fatores identificados. Segundo as empresas inquiridas, 43% do investimento total em tecnologia destina-se ao cumprimento de requisitos regulamentares nacionais e internacionais. Além disso, 67% afirmam que esses custos aumentaram nos últimos três anos.

Estes valores devem ser interpretados como resultados declarados pelas organizações participantes no estudo, e não como uma avaliação independente dos custos associados à regulamentação.

Quatro em cada dez startups admitem sair da Europa

O relatório apresenta ainda um sinal de preocupação sobre as condições de crescimento das startups portuguesas. Cerca de 42% afirmam que considerariam transferir a sua atividade para fora da Europa para conseguir expandir o negócio.

Entre as que admitem essa possibilidade, 56% afirmam que permaneceriam no continente caso tivessem melhor acesso a financiamento de capital de risco e de crescimento. Outros 47% apontam a necessidade de regras mais claras e harmonizadas, enquanto 43% destacam o acesso a profissionais especializados em inteligência artificial.

Estes resultados não significam que quatro em cada dez startups estejam a preparar uma mudança de localização. Representam uma intenção hipotética, condicionada pelas oportunidades de financiamento, pelo acesso a competências e pelas condições regulamentares.

O estudo mostra, assim, que as dificuldades das empresas portuguesas não se limitam à disponibilidade de tecnologia. O acesso a capital e a profissionais especializados também condiciona a capacidade de transformar experiências com IA em aplicações empresariais de maior escala.

Resultados da AWS diferem das estatísticas oficiais

A interpretação dos resultados exige alguma cautela. Os 51% apresentados pelo estudo da Strand Partners não correspondem à taxa oficial de utilização de inteligência artificial nas empresas portuguesas.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam tecnologias de IA em 2025, mais 2,9 pontos percentuais do que no ano anterior.

A diferença entre os dois indicadores é considerável, mas não permite concluir que a adoção tenha aumentado nessa proporção. Os resultados podem refletir diferenças na dimensão e composição das amostras, na definição de utilização de IA e nos critérios de seleção das empresas.

O comunicado divulgado pela AWS não apresenta informação suficiente sobre a metodologia do estudo de 2026, nomeadamente a dimensão da amostra, os setores abrangidos e o período de recolha dos dados, para estabelecer uma comparação direta com as estatísticas oficiais.

Esta limitação não invalida os resultados apresentados, mas recomenda prudência na sua extrapolação para o conjunto do tecido empresarial português.

O principal indicador do estudo é, por isso, a distância entre o acesso à inteligência artificial e a capacidade de a integrar nos processos das organizações. Embora mais empresas afirmem utilizar IA, apenas uma minoria das que já adotaram a tecnologia refere ter alcançado um nível avançado de integração.

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