Imagine um assistente digital capaz de organizar compromissos, responder mensagens, fazer compras e resolver tarefas sem que você precise acompanhar cada etapa. Parece conveniente, mas existe uma contrapartida pouco evidente: para funcionar, essa tecnologia precisa conhecer detalhes da sua vida. Uma investigação recente revelou até onde a nova inteligência artificial da Meta consegue chegar, incluindo informações sobre pessoas que nunca utilizaram o serviço.

Muse promete facilitar a rotina, mas exige acesso à vida digital

Muse promete organizar sua vida, mas uma investigação revelou o que acontece com seus dados
© Getty Images / Samuel Boivin/NurPhoto

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A Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, lançou recentemente o Muse, um agente de inteligência artificial desenvolvido para executar tarefas em nome dos usuários.

Diferentemente dos chatbots tradicionais, que normalmente respondem perguntas ou produzem conteúdos, os agentes de IA podem realizar ações utilizando ferramentas e serviços conectados.

Na prática, o Muse pode organizar informações, cancelar assinaturas, ajudar nas compras e administrar determinadas atividades digitais.

Para isso, entretanto, precisa acessar dados pessoais, mensagens, e-mails e outras informações autorizadas pelo usuário.

O serviço, inicialmente disponível nos Estados Unidos, já ultrapassou cinco milhões de downloads em menos de um mês, segundo informações divulgadas sobre seu lançamento.

O crescimento demonstra o interesse por ferramentas capazes de reduzir tarefas repetitivas. Mas uma investigação publicada pela revista TIME revelou que a tecnologia realiza análises muito mais profundas do que simplesmente identificar compromissos ou responder mensagens.

O Muse constrói registros detalhados sobre a personalidade, os relacionamentos e os hábitos de seus usuários.

E esses registros não ficam limitados às pessoas que instalaram o aplicativo.

A inteligência artificial cria perfis de pessoas que nem utilizam o serviço

Segundo a investigação publicada pela revista TIME, o Muse mantém documentos internos que reúnem informações sobre cada usuário e sobre pessoas mencionadas nas conversas às quais o assistente teve acesso.

Esses registros são atualizados aproximadamente a cada hora e funcionam como mapas das relações sociais.

A inteligência artificial pode identificar como duas pessoas se conheceram, quais interesses compartilham, quais assuntos discutem e até possíveis conflitos entre elas.

O sistema também procura compreender como cada indivíduo reage a diferentes formas de comunicação.

Por exemplo, pode registrar que determinada pessoa responde melhor a lembretes curtos enviados depois das 22h.

Outro aspecto envolve a capacidade de inferir objetivos e preferências que o usuário não declarou explicitamente.

As instruções analisadas pela reportagem mostram que o agente também observa expressões recorrentes, brincadeiras particulares e referências compartilhadas para tornar suas interações mais personalizadas.

O problema é que essas informações podem incluir familiares, amigos e colegas que nunca autorizaram diretamente o Muse a construir perfis sobre eles.

Isso não significa que o aplicativo tenha acesso irrestrito aos dispositivos dessas pessoas. Os registros são produzidos a partir das informações disponibilizadas pelo próprio usuário e pelos serviços conectados.

Ainda assim, a prática amplia o debate sobre consentimento e privacidade.

Pedir para a IA esquecer alguma coisa pode não funcionar como esperado

Muse promete organizar sua vida, mas uma investigação revelou o que acontece com seus dados
© Unsplash

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Uma das descobertas mais delicadas envolve o funcionamento da memória do Muse.

A Meta afirma que os usuários podem solicitar que o assistente esqueça determinadas informações. Entretanto, a investigação identificou uma diferença entre remover algo da memória utilizada pelo agente e apagar os registros originais.

Mesmo depois de receber uma ordem para esquecer um assunto, o Muse pode manter mensagens anteriores nas quais aquela informação apareceu.

Mais preocupante é que as instruções internas analisadas pela TIME orientariam o sistema a não destacar essa diferença durante a conversa.

Isso pode criar uma falsa sensação de controle sobre dados pessoais.

A questão é especialmente relevante porque agentes de IA trabalham com informações que podem incluir situações familiares, preferências íntimas e detalhes financeiros.

Para os usuários, esquecer uma informação normalmente significa que ela deixou de estar disponível. Tecnicamente, porém, excluir um registro da memória operacional não equivale necessariamente a eliminá-lo de todos os locais onde foi armazenado.

Meta apresenta mecanismos de segurança e promete mais proteção

Muse promete organizar sua vida, mas uma investigação revelou o que acontece com seus dados
© Dima Solomin – Unsplash

A empresa afirma que desenvolveu o Muse com diferentes mecanismos para proteger os usuários.

Conforme o comunicado oficial de lançamento da Meta, cada assistente funciona em uma máquina virtual isolada na nuvem.

O sistema também utiliza um segundo agente, chamado Sentinel, responsável por verificar determinadas operações antes que elas sejam executadas.

A companhia destaca outras medidas, como confirmação antes de compras e envio de e-mails, proteção de senhas e possibilidade de desconectar serviços.

Segundo a Meta, as conversas e os dados armazenados na máquina virtual do Muse não são compartilhados com seus sistemas de publicidade.

A empresa também permite que usuários impeçam o uso de suas interações no treinamento de modelos de inteligência artificial.

Entretanto, a investigação identificou instruções para compartilhar aprendizados gerais com a Meta, após a remoção de informações diretamente identificáveis.

A companhia afirma que esses dados são utilizados para melhorar o produto, não para transferir informações pessoais entre assistentes individuais.

Outra promessa envolve uma versão com criptografia controlada pelo próprio usuário, planejada para 2026. Nessa modalidade, nem mesmo a Meta poderia acessar o conteúdo protegido.

Essa funcionalidade ainda não estava disponível quando a investigação foi publicada.

O problema vai muito além de um único aplicativo

A controvérsia envolvendo o Muse revela um desafio que deverá acompanhar a popularização dos agentes de inteligência artificial.

Quanto mais tarefas essas ferramentas executam, maior tende a ser a quantidade de informações necessárias para oferecer resultados personalizados.

O problema não está apenas na coleta de dados, mas na capacidade de combinar informações dispersas para produzir conclusões sobre comportamentos, relacionamentos e preferências.

Uma pessoa pode autorizar o acesso ao calendário para organizar compromissos sem perceber que esse histórico também permite identificar hábitos e relações pessoais.

Para usuários brasileiros, mesmo sem disponibilidade local do Muse, a discussão é relevante diante da expansão de assistentes conectados a aplicativos de mensagens, bancos e serviços digitais.

A chegada dessas tecnologias exigirá atenção às permissões concedidas, às políticas de armazenamento e aos mecanismos de exclusão de informações.

O Muse mostra que a próxima geração de inteligência artificial poderá oferecer uma conveniência inédita. Mas também evidencia uma pergunta que ainda não foi completamente respondida: quanto da nossa privacidade estamos dispostos a compartilhar para economizar tempo?

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