Um implante capaz de acompanhar um tumor cerebral e responder com estimulação elétrica recebeu o apoio de dois investidores conhecidos do setor de tecnologia. O OpenAI Startup Fund e o Founders Fund, associado a Peter Thiel, participaram de uma rodada de US$ 45 milhões para a Coherence Neuro. A empresa pretende transformar registros elétricos do cérebro em informações sobre a evolução do câncer e, futuramente, usá-las para orientar intervenções personalizadas.

Uma tentativa de acompanhar o tumor continuamente

Dores De Cabeça, Náuseas E Dormência Podem Esconder Um Tumor Cerebral Avanço Inédito Amplia Opções Contra Um Dos Gliomas Mais Comuns
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

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A proposta parte de uma limitação do acompanhamento médico: exames mostram o estado da doença em determinados momentos. Entre essas avaliações, mudanças podem acontecer sem que exista uma medição contínua.

No anúncio do investimento, a Coherence descreve sua estratégia: registrar alterações elétricas associadas ao tumor e usar algoritmos para interpretar sua evolução. A empresa afirma ter iniciado a validação de possíveis marcadores em modelos animais.

Nesses experimentos, dispositivos registraram atividade próxima a tumores cerebrais em crescimento. Os dados serviram para treinar um modelo que buscava prever sua trajetória, incluindo diferenças entre animais tratados e não tratados.

A aplicação em pessoas permanece uma etapa a demonstrar. A meta é investigar se sinais semelhantes permitem acompanhar crescimento, resposta ao tratamento ou recorrência. O financiamento deve apoiar o desenvolvimento e um futuro estudo com implantes de longa duração em pacientes com glioblastoma.

Por que procurar sinais elétricos do câncer?

A ideia tem relação com descobertas sobre a interação entre tumores e sistema nervoso. Alguns cânceres cerebrais conseguem estabelecer conexões funcionais com neurônios e aproveitar sua atividade para favorecer o crescimento.

Um estudo publicado na Nature em 2019 mostrou que células de gliomas podem se integrar a circuitos neurais por mecanismos elétricos e sinápticos. As sinapses são estruturas de comunicação entre células, fundamentais para o funcionamento do cérebro.

A pesquisa identificou sinais transmitidos de neurônios para células tumorais e outros processos capazes de propagar atividade elétrica pelo tecido do câncer. Também encontrou maior excitabilidade em regiões cerebrais infiltradas pelo tumor.

Esses resultados ajudaram a abrir caminhos de investigação terapêutica. Entretanto, descobrir uma interação biológica não comprova que um implante consiga medi-la com precisão suficiente para orientar tratamentos. Essa é uma das questões que o desenvolvimento clínico precisa resolver.

O que já foi testado em humanos

A Coherence anunciou em junho o início de seu primeiro estudo em pessoas, conduzido pelo neurocirurgião Andrew Morokoff no Royal Melbourne Hospital, na Austrália.

O comunicado sobre a pesquisa clínica descreve um sistema experimental chamado CIPHER. Ele utiliza uma sonda fina e flexível, com eletrodos capazes de registrar atividade cerebral e aplicar estimulação.

O objetivo inicial é avaliar segurança, desempenho básico e manuseio durante procedimentos curtos realizados em cirurgias de retirada de tumores. Essa investigação é diferente da proposta de manter um dispositivo funcionando continuamente no paciente.

A própria empresa reconhece que ainda é cedo para observar benefícios diretos para os participantes. Também informa que seus dispositivos são experimentais e não possuem aprovação da FDA, nos Estados Unidos, nem da TGA, na Austrália.

Os registros obtidos nessa fase devem ajudar a comparar os achados animais com dados humanos e orientar o desenvolvimento da próxima geração do implante.

Como seria o sistema de uso contínuo

Cérebro + Chip
© Lia Koltyrina / Shutterstock

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A plataforma planejada para o acompanhamento prolongado se chama SOMA. Segundo a descrição da empresa, ela reúne um implante sem fio, aproximadamente do tamanho de uma moeda, um acessório externo usado sobre a orelha e um aplicativo.

O implante seria responsável por registrar sinais e aplicar estimulação. O acessório forneceria energia e recursos de memória, enquanto o aplicativo apresentaria informações, histórico de sessões e ferramentas para acompanhar sintomas.

A inteligência artificial entraria na interpretação dos registros. A intenção é construir modelos que acompanhem mudanças ao longo do tempo e ajudem a personalizar a resposta do sistema.

Esse funcionamento integra a visão de produto apresentada pela Coherence. A possibilidade de monitorar a doença em casa, reduzir deslocamentos e ajustar intervenções ainda depende da validação da tecnologia e dos estudos necessários para seu uso clínico.

O investimento também revela o interesse pelos dados cerebrais

O apoio financeiro se insere em um movimento mais amplo de aproximação entre inteligência artificial e neurotecnologia. Em janeiro, a OpenAI já havia anunciado um investimento na Merge Labs, uma iniciativa distinta que pesquisa novas interfaces entre cérebro e computador.

Na apresentação dessa parceria, a OpenAI descreveu aplicações da IA em bioengenharia, neurociência e interpretação de sinais limitados ou ruidosos. A colaboração anunciada inclui modelos científicos e ferramentas de pesquisa.

No caso da Coherence, o investimento não implica acesso automático às informações dos pacientes. Ben Woodington, cofundador e diretor executivo, afirmou à WIRED que os acordos não dão à OpenAI acesso aos dados cerebrais ou de saúde produzidos pela startup.

O próximo avanço decisivo dependerá dos resultados clínicos: demonstrar que os sinais registrados representam a evolução do tumor e que agir sobre eles oferece um benefício mensurável. Até lá, o projeto combina uma hipótese científica relevante, testes iniciais e recursos para investigar uma promessa que permanece em desenvolvimento.

 

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