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Imagine descobrir que suas publicações nas redes sociais foram analisadas por uma empresa contratada pelo governo e que seu nome acabou incluído em uma lista de pessoas consideradas críticas à administração. Ou ser abordado pela polícia porque uma câmera confundiu seu rosto com o de um suspeito. Essas situações parecem saídas de uma série de ficção científica, mas episódios documentados na América Latina mostram que a vigilância digital já produz consequências reais.
Governos estão aprendendo a transformar publicações em perfis individuais
Na Colômbia, uma empresa contratada para melhorar a imagem do governo elaborou uma lista com 486 usuários da rede social X.
O critério não era a quantidade de seguidores ou o alcance das publicações.
Os perfis foram classificados conforme sua posição em relação à administração: favorável, neutra ou de oposição.
O episódio aparece no relatório En la mira 2: un panorama de las amenazas digitales en América Latina, elaborado pela organização Derechos Digitales em colaboração com o Observatório Latino-Americano de Ameaças Digitais (OLAD).
A investigação reúne incidentes documentados entre junho de 2024 e maio de 2025.
Um dos principais alertas envolve duas práticas: o ciberpatrulhamento, que acompanha atividades na internet, e o perfilamento digital, que utiliza informações para classificar indivíduos segundo comportamentos, opiniões ou relações.
No México, documentos militares vazados revelaram a aquisição, em 2020, do software israelense HIWIRE, desenvolvido para monitorar usuários, analisar conexões digitais e utilizar perfis falsos em determinadas operações.
Os casos demonstram como informações publicamente acessíveis podem ganhar outra dimensão quando são coletadas e analisadas sistematicamente por instituições estatais.
O Brasil também aparece entre os países que ampliam o monitoramento
O relatório identifica iniciativas brasileiras relacionadas ao uso de tecnologias de análise digital.
Em 2024, tornou-se pública uma licitação do governo federal para contratar serviços capazes de examinar publicações nas redes sociais.
Entre as funcionalidades previstas estavam a identificação de emoções por inteligência artificial e a avaliação da popularidade de conteúdos.
Embora ferramentas de monitoramento possam ter finalidades administrativas legítimas, sua utilização levanta questões sobre privacidade, transparência e limites na coleta de dados.
O problema se torna ainda mais delicado quando sistemas automatizados são empregados para identificar pessoas.
Na cidade de São Paulo, o programa Smart Sampa começou a ser implantado no final de 2024, utilizando câmeras e reconhecimento facial para localizar indivíduos procurados.
Segundo os dados reunidos pelo relatório, mais de 8% das pessoas presas com auxílio do sistema foram posteriormente liberadas em razão de erros.
Entre os episódios documentados está o de um homem de 80 anos identificado equivocadamente como suspeito de agressão sexual.
Esses casos mostram que uma identificação automatizada incorreta pode produzir consequências concretas para pessoas inocentes.
Câmeras e inteligência artificial avançam mais rápido que as regras de controle
A expansão dessas tecnologias não acontece apenas no Brasil.
No Paraguai, a organização TEDIC identificou sistemas de reconhecimento facial instalados em pelo menos 13 instituições públicas, sem regulamentação específica ou avaliações de impacto sobre direitos humanos.
Na Argentina, a Resolução 710/2024 criou uma unidade especializada no uso de inteligência artificial para segurança pública.
Entre suas atribuições estão a análise de imagens, redes sociais e padrões associados a possíveis atividades criminosas.
Já no Uruguai, um adolescente foi detido depois que policiais o confundiram com outra pessoa que utilizava o mesmo nome nas redes sociais.
Essas iniciativas apresentam diferenças importantes e não constituem necessariamente um sistema regional unificado de vigilância.
Entretanto, revelam um desafio comum: como garantir que tecnologias desenvolvidas para auxiliar a segurança pública não sejam utilizadas de maneira abusiva ou discriminatória?
A existência de ferramentas avançadas não elimina a necessidade de fiscalização independente, critérios claros e mecanismos para contestar erros.
As consequências da vigilância podem continuar por muito tempo
O relatório também aborda impactos que não aparecem nas estatísticas de monitoramento.
Entrevistas realizadas pela Fundación Acceso com jornalistas e defensores dos direitos humanos da América Central registraram relatos de ansiedade, insônia, mudanças de residência e gastos adicionais com segurança após episódios de espionagem digital.
Em determinadas situações, as consequências incluíram até o exílio.
Isso demonstra que o problema não se limita à capacidade técnica de identificar alguém.
A possibilidade de estar sendo monitorado pode modificar comportamentos, restringir a liberdade de expressão e comprometer a participação pública.
Os autores ressaltam que o levantamento não estabelece uma classificação dos países mais vigilantes. A quantidade de casos documentados depende das condições de investigação e da disponibilidade de informações.
Ainda assim, os episódios apontam uma transformação importante.
Os governos dispõem de ferramentas cada vez mais poderosas para identificar, acompanhar e classificar pessoas, enquanto os mecanismos de supervisão nem sempre avançam na mesma velocidade.
A questão central deixa de ser apenas o que a tecnologia consegue descobrir.
Passa a ser quem pode utilizá-la, sob quais condições e como os cidadãos podem exigir explicações quando seus direitos são afetados.
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