A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2026 trouxe uma discussão que vai muito além das urnas. Em um cenário marcado pela influência das redes sociais, a campanha mostrou como algoritmos, influenciadores digitais e grupos de WhatsApp podem interferir na circulação de mensagens políticas. O resultado também reacendeu o debate sobre o poder das grandes empresas de tecnologia e os limites da comunicação eleitoral.

Como Lula conseguiu disputar espaço nas redes sociais?

Com 51,79% dos votos válidos no segundo turno, realizado em 25 de outubro, Lula conquistou seu quarto mandato presidencial, superando Flávio Bolsonaro, que recebeu 48,21%.

A campanha foi marcada por uma intensa disputa digital, especialmente depois do primeiro turno, quando o candidato petista precisou ampliar sua presença nas plataformas.

Um dos principais responsáveis por essa mudança foi o deputado federal André Janones, que coordenou uma estratégia de mobilização de apoiadores por meio do WhatsApp.

O canal chamado Exército do Lula chegou a aproximadamente 10,8 milhões de seguidores.

Os participantes recebiam orientações para compartilhar vídeos, divulgar publicações e promover conteúdos favoráveis à candidatura.

A estratégia buscava transformar apoiadores em multiplicadores de mensagens, ampliando o alcance da campanha para além dos perfis oficiais.

O algoritmo se tornou parte da disputa eleitoral

Vitória de Lula revela como o algoritmo se tornou uma nova arma nas eleições brasileiras
© unsplash

Continua após a publicidade


Durante muito tempo, campanhas políticas concentraram investimentos em televisão, rádio, eventos públicos e materiais impressos.

Esses meios continuam importantes, mas as redes sociais introduziram uma nova variável: a distribuição de conteúdo por sistemas automatizados.

Plataformas como Instagram, Facebook, TikTok e YouTube utilizam algoritmos para determinar quais publicações aparecem com maior frequência para cada usuário.

Esses mecanismos consideram sinais como visualizações, compartilhamentos, comentários e tempo de permanência.

Consequentemente, uma publicação capaz de provocar reações intensas pode alcançar milhões de pessoas, mesmo quando parte do público discorda da mensagem.

Na avaliação da cientista política Ana Rita Argüello Miranda, autora de um artigo publicado no jornal costarriquenho Diario Extra, a eleição brasileira demonstrou que a disputa política também acontece dentro desses sistemas digitais.

Entretanto, o alcance de uma publicação não pode ser confundido automaticamente com sua capacidade de conquistar votos.

Meta foi acusada de favorecer Bolsonaro

A influência das plataformas ganhou destaque quando a campanha de Lula questionou o funcionamento de ferramentas de publicidade e distribuição de conteúdo da Meta.

O Partido dos Trabalhadores denunciou restrições no impulsionamento de publicações e levantou suspeitas de tratamento desigual entre as candidaturas.

A empresa negou favorecimento político e atribuiu parte dos problemas relatados a falhas técnicas.

Especialistas ouvidos pela Deutsche Welle ressaltaram que a falta de transparência dos algoritmos dificulta determinar se diferenças de alcance resultam de decisões deliberadas, características do conteúdo ou mecanismos automatizados.

Portanto, as acusações não constituem, por si só, comprovação de interferência eleitoral.

O episódio reforçou a discussão sobre fiscalização, transparência e responsabilidade das empresas que controlam plataformas utilizadas por milhões de eleitores.

Redes sociais não explicam sozinhas a vitória

Vitória de Lula revela como o algoritmo se tornou uma nova arma nas eleições brasileiras
© YouTube

Continua após a publicidade


Apesar da dimensão alcançada pelo Exército do Lula, pesquisadores alertam que seria incorreto atribuir o resultado exclusivamente à mobilização digital.

Em análise publicada pela BBC, cientistas políticas destacaram a importância da combinação entre comunicação nas redes e organização presencial.

Atividades de campanha, contato direto com eleitores e mobilização de apoiadores também contribuíram para a disputa.

Outro ponto importante é que milhões de visualizações não equivalem necessariamente a milhões de eleitores convencidos.

Uma mesma pessoa pode assistir a vários vídeos, e parte do engajamento pode ocorrer entre usuários que já apoiavam determinado candidato.

Ainda não é possível calcular com precisão quantos votos foram influenciados diretamente pela estratégia digital de Janones.

O que a eleição brasileira ensina sobre o futuro da democracia?

A experiência de 2026 colocou três desafios no centro do debate: transparência dos algoritmos, combate à desinformação e capacidade de mobilização política.

O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras para a atuação das plataformas durante a campanha, incluindo medidas relacionadas à publicidade política e ao uso de inteligência artificial.

Entretanto, especialistas apontam que fiscalizar sistemas de recomendação continua sendo uma tarefa complexa, especialmente quando as empresas não divulgam integralmente seus critérios de funcionamento.

O desafio é encontrar mecanismos que permitam investigar possíveis irregularidades sem comprometer a liberdade de expressão e o debate público.

A eleição brasileira também mostrou que a comunicação digital não substitui a política presencial.

O resultado foi construído em um ambiente no qual plataformas, partidos, influenciadores e eleitores participaram de uma disputa simultaneamente tecnológica e social.

A principal lição é que a democracia precisa compreender o funcionamento dos algoritmos sem permitir que eles se tornem árbitros invisíveis da competição eleitoral.

Veja todas notícias sobre Tecnologia

Publicidade