A expansão dos centros de dados de IA enfrenta um novo obstáculo. A capacidade mundial de produção de cabos elétricos começa a revelar-se insuficiente para acompanhar o ritmo de construção destas infraestruturas, segundo a fabricante francesa Nexans. O problema pode comprometer os calendários de projetos que dependem de grandes quantidades de cabos para distribuir eletricidade.

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O alerta foi feito por Vincent Piquet, diretor financeiro da Nexans, numa entrevista à Reuters. O responsável explicou que a procura está a crescer mais depressa do que a indústria consegue aumentar a produção, sobretudo nos segmentos de baixa e média tensão. A construção de novas instalações industriais exige investimentos e prazos que não acompanham a velocidade dos projetos tecnológicos.
Novas linhas de produção podem demorar três anos
De acordo com a Reuters, a instalação de uma nova linha de produção de cabos com isolamento de polietileno reticulado (XLPE) pode demorar cerca de três anos.
Esta limitação é particularmente relevante para os centros de dados de inteligência artificial, que precisam de infraestruturas elétricas capazes de alimentar milhares de servidores, sistemas de refrigeração e equipamentos auxiliares.
Quanto maior for a instalação, maior tende a ser a necessidade de cabos de média tensão, utilizados na distribuição de eletricidade entre diferentes componentes da infraestrutura.
O problema não se resolve apenas com investimento financeiro. A expansão industrial depende da instalação de maquinaria especializada, da disponibilidade de matérias-primas e da capacidade de produção dos fornecedores.
Escassez altera contratos e investimentos
A pressão sobre o abastecimento já está a modificar as relações comerciais entre fabricantes e operadores de redes elétricas.
Segundo Vincent Piquet, a Enedis, responsável pela distribuição de eletricidade em França, passou de contratos anuais para acordos com duração de seis ou sete anos, com o objetivo de assegurar o fornecimento de cabos.
A escassez também permite aos fabricantes selecionar os projetos aos quais destinam a sua capacidade produtiva, uma situação que pode dificultar o acesso de novos clientes aos materiais necessários.
A própria Nexans já tinha identificado estas dificuldades numa análise publicada a 8 de outubro. Nesse documento, a empresa explica que obter autorização para ligar um centro de dados à rede elétrica não significa que a infraestrutura esteja pronta a funcionar. Transformadores, sistemas de distribuição e cabos precisam de ser fabricados, entregues e instalados.
Nexans beneficia do crescimento da procura
A pressão sobre a indústria coincide com um período de crescimento da fabricante francesa.
Nos resultados dos primeiros nove meses de 2026, a Nexans comunicou vendas standard de 4.946,7 milhões de euros, um aumento de 10,1% face ao período homólogo. O crescimento orgânico foi de 3,9%, enquanto as aquisições contribuíram com 5,6 pontos percentuais para a evolução das vendas.
A empresa também reforçou a sua presença nos Estados Unidos com a aquisição da Republic Wire, fabricante de cabos de baixa tensão, numa operação concluída em junho de 2026.
Apesar das oportunidades comerciais que esta situação representa para a Nexans, os alertas devem ser interpretados tendo em conta os interesses da fabricante no mercado.
A escassez de cabos não significa que todos os projetos de centros de dados estejam atrasados. Mostra, contudo, que a expansão da inteligência artificial depende de uma cadeia industrial mais ampla do que a produção de semicondutores e servidores.
Em Portugal, a expansão destas infraestruturas também coloca desafios ao sistema elétrico. Segundo uma notícia publicada pelo TecheNet, a capacidade instalada dos centros de dados poderá ultrapassar 1 GW até 2030, o que exigirá investimentos nas redes e no fornecimento de energia. O alerta da Nexans acrescenta outra dimensão a este desafio, ao mostrar que a disponibilidade de cabos elétricos também pode condicionar os prazos de construção.
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