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Os smartwatches deixaram há muito de servir apenas para contar passos ou medir o ritmo cardíaco. Com sensores cada vez mais sofisticados e algoritmos de inteligência artificial (IA), estes dispositivos estão a aproximar-se de um novo objetivo: identificar sinais precoces de doença antes mesmo de o utilizador sentir os primeiros sintomas.

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Embora ainda não substituam um diagnóstico médico, investigadores e fabricantes acreditam que a combinação entre sensores biométricos e IA poderá transformar os wearables em importantes aliados da medicina preventiva.
A força está na comparação com o “normal” do utilizador
Ao contrário do que muitos pensam, um smartwatch não “descobre” diretamente uma doença. O que faz é monitorizar continuamente diversos indicadores fisiológicos e comparar esses valores com o padrão habitual de cada pessoa.
Entre os parâmetros analisados encontram-se:
- Ritmo cardíaco
- Variabilidade da frequência cardíaca
- Temperatura da pele
- Frequência respiratória
- Qualidade do sono
- Saturação de oxigénio (SpO₂)
- Nível de atividade física
Quando vários destes indicadores apresentam alterações simultâneas e fora do padrão normal, o sistema pode gerar um alerta para que o utilizador esteja atento ao seu estado de saúde.
A fibrilhação auricular continua a ser um dos maiores sucessos
Uma das funcionalidades que mais consenso reúne entre a comunidade médica é a deteção de fibrilhação auricular (AFib), uma arritmia cardíaca associada a um maior risco de AVC.
Num estudo realizado com o Apple Watch, os alertas de ritmo cardíaco irregular corresponderam efetivamente a casos de fibrilhação auricular em cerca de 84% das situações analisadas, tornando esta uma das funcionalidades clinicamente mais relevantes atualmente disponíveis nos relógios inteligentes.

IA poderá identificar gripes e COVID-19 antes dos sintomas
Um dos avanços mais interessantes surge da combinação entre múltiplos sensores e modelos de inteligência artificial.
Investigadores da Texas A&M University e da Stanford University demonstraram recentemente que um smartwatch pode identificar alterações fisiológicas compatíveis com infeções respiratórias, como gripe ou COVID-19, poucas horas após a infeção e antes do aparecimento dos sintomas.
Segundo os investigadores, se estas informações forem utilizadas para incentivar testes precoces, isolamento ou tratamento atempado, poderá ser possível reduzir significativamente a propagação de futuras epidemias, estimando-se reduções que podem atingir os 50% em determinados cenários.

A IA ajuda a interpretar milhões de dados
Cada utilizador gera diariamente milhares de medições biométricas. É aqui que entra a inteligência artificial.
Em vez de analisar um único parâmetro, os algoritmos cruzam diferentes informações para perceber se existe uma tendência preocupante.
Várias empresas já utilizam este tipo de abordagem:
- A Apple integra a funcionalidade Vitals, que combina vários sensores para identificar alterações relevantes;
- A Oura disponibiliza o Symptom Radar, que procura sinais iniciais de doença;
- A Whoop utiliza sistemas de recuperação baseados em IA;
- A Google está igualmente a apostar em assistentes de saúde alimentados pelos modelos Gemini.
Ainda existem muitas limitações
Apesar dos progressos, os especialistas alertam que muitos dos indicadores apresentados pelos smartwatches continuam longe de possuir precisão clínica suficiente.
Entre os dados cuja fiabilidade continua limitada encontram-se:
- Estimativas de calorias queimadas
- Medição da pressão arterial (quando disponível)
- Estágios detalhados do sono
- VO₂ máximo
- Índices de recuperação física
Além disso, alterações como um aumento do ritmo cardíaco em repouso podem ter múltiplas explicações, desde uma infeção até uma noite mal dormida, consumo de álcool ou simples fadiga física.

Um apoio, nunca um substituto do médico
A tendência aponta para que os smartwatches evoluam como ferramentas de monitorização contínua da saúde, funcionando como um sistema de alerta precoce e não como um dispositivo de diagnóstico.
Os próprios especialistas sublinham que qualquer alerta gerado por inteligência artificial deve servir apenas como incentivo para procurar aconselhamento médico e nunca substituir uma consulta ou exames clínicos.
O futuro destes dispositivos poderá passar precisamente por isso: acompanhar discretamente o utilizador, identificar alterações importantes no seu estado fisiológico e fornecer informação útil para uma avaliação médica mais rápida e fundamentada.
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