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Mais de uma dezena de agentes da autoridade já foram detidos, despedidos ou colocados sob investigação por, supostamente, usarem as câmaras do sistema de leitura de matrículas para vigiar antigas parceiras. O caso está a abalar a confiança num produto vendido sob a promessa de segurança pública.

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Tecnologia pensada para apanhar criminosos
As câmaras da Flock Safety usam Inteligência Artificial (IA) para ler matrículas automóveis em tempo real, cruzando essa informação com bases de dados policiais para ajudar a localizar veículos associados a crimes.
A promessa é a de que mais segurança nas ruas resulta em menos tempo perdido em investigações.
Na prática, contudo, o acesso privilegiado a este tipo de dados parece estar a ser explorado para fins diferentes.
Segundo investigações de vários órgãos de comunicação social norte-americanos, pelo menos 18 agentes policiais, espalhados por diferentes estados e jurisdições, foram alvo de processos disciplinares ou criminais por usarem indevidamente o sistema para localizar e seguir ex-companheiras.
Fontes ligadas às investigações acreditam que estes casos são apenas a ponta do icebergue, já que muitas situações nunca chegam a ser reportadas oficialmente, sendo resolvidas internamente com simples avisos.

O leitor de matrículas da Flock Safety emite alertas instantâneos sobre veículos sinalizados para que as autoridades possam "agir antes que os danos sejam causados", nas palavras da própria marca. Além disso, promete dados nítidos e pesquisáveis do veículo, com ou sem matrícula, uma vez que imagens desfocadas não resolvem casos.
Os casos reportados
Um dos exemplos mais graves envolve Jarmarus Brown, ex-agente da polícia de Orange City, na Florida. Detido em fevereiro, Brown é acusado de ter pesquisado a matrícula da ex-namorada mais de 100 vezes ao longo de sete meses, em 2024, utilizando o computador profissional da corporação para seguir os movimentos dela e até partilhar vídeos do seu veículo.
Em Milwaukee, o agente Josue Ayala demitiu-se, em março, depois de ser acusado pela ex-namorada de a localizar, a ela e ao novo parceiro, através do sistema Flock.
Este agente viria a ser detido e acusado por má conduta em funções públicas, depois de se apurar que tinha acedido à base de dados de matrículas 179 vezes por motivos pessoais.
Já no Kansas, o antigo chefe da polícia de Sedgwick, Lee Nygaard, foi acusado de ter rastreado o carro da ex-namorada 164 vezes entre junho e outubro de 2023, além de ter pesquisado a matrícula do novo namorado dela 64 vezes e de a ter seguido fisicamente com o veículo policial. Depois de admitir ter agido por ciúmes, Nygaard demitiu-se.

Sem infraestrutura, as câmaras de vídeo da Flock Safety emitem alertas instantâneos sobre pessoas e veículos, sem necessidade de monitorização constante, e integram-se com os sistemas de reconhecimento de matrículas de veículos, disparos de armas de fogo e drones, promovendo o sucesso das investigações.
Estes não são casos isolados. Ao longo dos últimos anos, têm-se multiplicado relatos semelhantes a envolver agentes da autoridade que usam o acesso privilegiado a estas ferramentas para fins de assédio.
Para os defensores da privacidade, o número real de incidentes deverá ser muito superior ao divulgado, uma vez que muitas situações são resolvidas internamente pelas próprias corporações, evitando assim eventual responsabilização legal.
O senão das câmaras com IA nas estradas
Vários municípios norte-americanos decidiram já terminar os contratos com a Flock Safety, citando preocupações com vigilância excessiva e abuso de poder.
De acordo com um relatório recente, 53 municípios em 20 estados diferentes recusaram instalar as câmaras ou desativaram os sistemas já em funcionamento.
A própria empresa, sediada em Atlanta, tem sido acusada de tentar restringir o acesso público à informação sobre as pesquisas feitas pelas polícias na sua base de dados de matrículas.
Este caso da Flock Safety ilustra um dilema cada vez mais comum no mundo da videovigilância inteligente. De facto, a mesma tecnologia que promete tornar as cidades mais seguras pode, sem supervisão adequada, tornar-se uma arma de abuso nas mãos de quem deveria protegê-las.
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